Vário do Andaraí

Aduz à brinca, 055, afrontando – o caos, o bruto, a trinca, o deletério, que o piche é quente, veemente, e tu, tu somente, teu solitário império, és quem te leva – a sério.
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FRAGMENTO DE UM GÊNESIS APÓCRIFO

Tarifado por Vario em 26 janeiro, 2012

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Então, no nono dia da criação, Deus engendrou o ventilador. E isto foi bom.

No décimo dia, do magma escaldante das regiões subterrâneas,  o Todo Poderoso plasmou o Andaraí, e, a seguir,  do plástico e do metal, o ar condicionado, para que este fosse usado com austeridade em Seu nome, porquanto os homens deveriam observar a temperança dos que seguem Seus desígnios e as altas tarifas de energia.

 

Ao tomar conhecimento do dispor do Criador, o espírito maligno, visando afrontar a magnanimidade do Senhor, riu-se e instalou-se em um cortiço no sítio criado, ao setentrião da tumultuária cidade em que há sobre um alto monte corcovado uma grande imagem divina talhada em concreto e pedra-sabão . E isto foi mau.


Categoria: Crônica, Parábola
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ANÁLISE SINTÁTICA DA ORAÇÂO

Tarifado por Vario em 25 janeiro, 2012

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Se aumentativo : um bufão
Se diminutivo : no descaminho
Se adjetivo : adjeto
Se possessivo : de si
Se substantivo : ao vento
Se subjetivo : que me leve
leve.
Amém.

 

Categoria: Camoniano
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PEQUENA TESE SOBRE O AMOR

Tarifado por Vario em 22 janeiro, 2012

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 (Eu não acredito em deus nem desacredito dele, mas muito lhe agradeço  por ter-me dado tempo suficiente de vida para tentar consertar defeitos terríveis da minha constituição)

(…)

O amor não vai baixar a guarda, nem dar as costas para o inimigo.

Virá um e escrevrá a carvão, nas paredes descascadas da velha estação abandonada, um grito negro de amor em letras agarranchadas. Virá a chuva, a chuva de banda, o vento, o tempo, a indiferença do tempo, que passa e esquece e não retoca.

Daí virá outro, um mais sanhudo, lata de spray à mão, e vai assinar sua marca, em vermelho, por cima do borrão acinzentado, um outro grito, um grito meio bandido, menos ingênuo – mas grito, e de amor.

O prédio da estação virá abaixo, um pequeno conjunto de casas populares erguer-se-á. Mas lembre-se, amigo, de que o amor não vai baixar a guarda nem dar as costas para os tralhas e bobos. O amor lutou em Stalingrado e luta nas ruas do mundo todos os dias,  e não será aqui que há de se acovardar, nesta pequena vila operária feita de gente como qualquer um, cheia de virtudes e defeitos, sobretudo a coragem , porque não lhe resta outro teimosia que não esta – amar, amar teimando, ouvindo o apito de invisíveis locomotivas.

Das oito casas, sete, talvez, serão lares infelizes. Suponhamos, sejamos pessimistas. Mas em um, em um apenas, um casal, digamos Pedro e Conceição ( “Pedro” quer dizer pedra e “Conceição” quer dizer vida ) hão de se olhar num instante fortuito e compreender o milagre. Não o bíblico – não o de que a mulher é da costela, e o homem é do barro, insuflado do bafo divino, embora haja um Cristo na parede da sala -, mas o milagre dos que resistem apesar do sem sentido, apesar de toda luta cotidiana, apesar de que eles não saibam que ali foi um pedaço de uma velha estação de paredes descascadas, em cujo caiado houve gritos negros e vermelhos de amor.

E assim fica provado que o amor não vai baixar a guarda, nem dar as costas para o inimigo.

Categoria: Catarse, Crônica, Parábola
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POR VOLTA DA MEIA-NOITE

Tarifado por Vario em 17 janeiro, 2012

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´Round Midnight ( Thelonious Monk ) – Miles Davis & John Coltrane

 

Por volta da meia noite, chovia. O quanto foi maravilhoso o dia é. É. Eu lembrei de você ao volante do carro. Lá fora, a ventania chovia, enlouquecia as palmeiras do Horto.

       – O senhor dirige sempre à noite ?
       – Hem ?
       – Perguntei se o senhor dirige sempre à noite…
       – Desculpe, eu estava longe…
       – Ah…hum…só não se esqueça dos postes…

Ri. Pensei em dizer algo idiota como “…a metafísica concreta dos postes e dos meios-fios…”. Aumentei um pouquinho o som.

Por volta da meia noite, chovia. O quanto foi maravilhoso o dia ainda é nesta madrugada estrelada e grande por cima da borra de nuvens. Eu lembrei de você ao volante do auto, enquanto uma chuva linda e abençoada depurava a cidade e te adormecia.

Categoria: Crônica, Nas internas, Pavimentação
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A VIDA

Tarifado por Vario em 15 janeiro, 2012

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Uma fagulha, e eis que a vida, pra lá ou pra cá, irrompe ou talha.
E eis que a vida é no fio da navalha :
A dívida, a dividida, a dúvida, a dádiva, a diva, o divã
                                                                                                                            

                                                                                                                                    em vão.

A vida, meu irmão, não descansa aos domingos.

Categoria: Camoniano, Nas internas
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BOIS DE CARRO

Tarifado por Vario em 12 janeiro, 2012

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Que tal comprar umas flanelas novas ? A flanela é item quase obrigatório do ferramental dos taxistas e dos motoras em geral. Servem elas pro polimento da viatura, pra limpar ou secar as mãos e mesmo, em dias de muito calor, como uma espécie de cangalho – bichos de tração que somos – entre o pescoço e o colarinho da camisa.

Então, enquanto no sistema de som ambiente uma música esganiçada e sem sentido me confirma o sem sentido das coisas, me posto na fila do caixa de uma loja de departamentos com três flanelas numa mão, duas barras grandes de chocolate branco na outra…

…E um vácuo nos bofes… vácuo que pode ser por anemia, falta de feijão no sangue, ou porque as pessoas à minha frente, na fila, me parecem todas elas também bichos de tração.

 Deus nos guarde.

 Mas, tirante o ferrete último e inexorável, em M maiúsculo, que o abatedouro nos dá nos lombos – bichos de tração que somos, pra tudo tem remédio. E eis que bem a meu lado, numa gôndola de livros, a biografia de um suposto gênio ( que comeu um naco do fruto de uma árvore do paraíso e seus olhos se abriram para máquinas e programas fantásticos ) é o remédio para enfrentar os minutos tediosos de fila – a fila, “a grande cobra de barriga vazia”.

 Demos uma folheada na biografia : consta que aquele homem genial era meio marrento, humilhava seus funcionários aos gritos e passava o trator geral em quem cambaleasse no lamaçal. Depois, adoeceu de coisa que mata, curvou o cachaço e ajoelhou-se diante do totem da eternidade.

 Deus lhe cuide.

 Pois é isto, estou de pé na fila, boi sem parelho, sem poder nem querer esculachar ninguém, me perguntando se é preciso um caroço nas tripas pra nos dar a mínima percepção de que em alguma medida estamos todos acangalhados na mesma junta indo sabe-se lá pra onde, tendo de aboio esta música esganiçada e sem sentido da loja de departamentos.

                - Próximo !!!!

 

Categoria: Catarse, Crônica
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31/12/1904

Tarifado por Vario em 31 dezembro, 2011

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Na noite de 31 de dezembro de 1904, o senhor Joaqum Maria recolheu-se pouco antes das 21h. Recebera mais cedo alguns chegados para o chá. Agora, ocupando apenas metade do leito, no lado oposto ao de Carolina, o velho, de lado, mãos estendidas ao curso do corpo, dorme o sono dos libertos e dos libertários.

Na casa do Cosme Velho, só o pêndulo do invisível relógio faz-se ouvir dentro das silenciosas – afirmar-se-iam – fundações.

Na manhã do dia 1 de janeiro de 1905, ainda em robe de chambre, o senhor Joaquim Maria escreveu o soneto com que lhes desejo feliz 2012

Categoria: Crônica, Fábula, Parábola
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PROPOSTA

Tarifado por Vario em 23 dezembro, 2011

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Proposta boa ouvi dia desses aí de verãozão, a chuva passara, e o sol de banda amanhecia. Era um fim de ano como este, como todos. A enseada de Botafogo, à frente, assim que quebramos a curva do Mourisco, enseava-se. Uma luz meio meio íris, meio gris, e os carros fazendo chuá na pista. Tocava Estrada do Sol, do Tom. Parece mentira, mas não é. Era o Rio de Janeiro que queremos. (Perderemos ?). Éramos quase você e eu, mas não éramos, eram outros passageiros indo pro aeroporto. O vento, vidros abaixados, já era quase o voo dos dois; e o chapéu da moça, segura !!!, era rosa e amarelo…ou seria a própria manhã que pelo retrovisor eu via ? Sabe-se lá…A poesia confunde tanto a gente a poesia…

         – Vamos ser feliz ? Vamos ser feliz ? – repetiu a moça, dando ao “vamos” e ao “feliz” a plena concordância.

Chuva com sol. Só faltou um rouxinol.

 

Estrada do Sol ( Tom Jobim & Dolores Duran ) – Gal Costa

 

 

Categoria: Crônica, Fábula, Trânsito
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PASSATEMPOS

Tarifado por Vario em 08 dezembro, 2011

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Do claustro à órbita estelar, a vida joga contra a gravidade da solidão e dos espaços. Até que a morte, corpo estanque e vácuo, mostre suas cartas sabidas de todos : o royal street flash.

 
17 e 18 de dezembro em Belo Horizonte. Em janeiro, no Rio.

 

Categoria: Parábola
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ENTRE UMA CORRIDA E OUTRA

Tarifado por Vario em 06 dezembro, 2011

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Entre uma corrida e outra, decassilaboso, escando.

Ora, diabos ! Mesmo que com a canela, todo mundo tem direito a um verso.

 

O ESPANTALHO

D´ árdua instância de cultivo vazio,
Espantalho de horas corvas e gralhas,
Pendo eu, inânime e maltrapalhas,
Zelador noturno deste erradio

 

              àgreste de ti.


Categoria: Camoniano, Catarse, Crônica
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PROCURA-SE O AUTOR

Tarifado por Vario em 26 novembro, 2011

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Foi encontrado, por baixo do banco do carona, um poema manuscrito  em folha lisa e dobrado com cuidado.

 

 

 

Categoria: Camoniano, Diário de Bordo, Farsa
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EU SOU UM BRASILEIRO

Tarifado por Vario em 20 novembro, 2011

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É Preciso Perdoar ( Carlos Coqueijo & Alcyvando Luz ) – J. Gilberto

 

Demônios e deuses me sopram pela janela aberta à conjuração dos sentidos : este samba, este mantra, a dama-da-noite, o mundo lá fora, meu corpo vívido no torpor do quase silêncio.

À beira do precipício da compreensão das coisas, enfim, soube que voar é com as araras, com os sabiás, com os bem-te-vis…e nuvens verdes sobre as matas extintas.

Perdão, Brasil

Categoria: Camoniano, Catarse, Crônica, Nas internas
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ORA VIVA !

Tarifado por Vario em 02 novembro, 2011

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Ora viva, é feriado ! Viva ao presente, viva ao futuro, viva ao passado !
A viatura vai se esbaldar num banho de espuma :
Tomo três e um samba, tomo duas, outro samba, tomo uma…
E o enxágue, na aguardente,  dá um lustro contente :
Um estalo de flanela e que a sorte nos cuide.
Ao iniciado e ao finado,
Saúde !!!!!!

 
 

Tempo de Dondon ( Nei Lopes ) – Zeca Pagodinho

 

 

Categoria: Camoniano
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LÓGICA

Tarifado por Vario em 20 outubro, 2011

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Eu sei fazer um troco de cabeça razoavelmente rápido e posso calcular o consumo de combustível com tolerável imprecisão.

Quando, por exemplo, me vem um pardal de 8o à frente, dou um brequinho nos 9o. Se conto 1, 2,3, 4… 5 passageiros, não levo :

         - Ô irmãozinho, né má vontade, não…são as posturas muncipais…

Em dias pares, trabalho; em ímpares, também. Mas ando meio vagabundo nos pares e nos ímpares ( Eu poderia justificar a vadiagem com um verso do “Confidência do Itabirano” [sem o risco da empolação tão imprópria a um taxista, visto que o poeta Carlos Drummond é da massa], mas a crônica e a lógica falam por si ).

Automóvel de passeio tem 2 eixos, um trucado pode ter vários, triciclo tem 3 rodas, e bípede é um ser de 2 patas, que às vezes gorjeia, que às vezes pensa direito, que às vezes faz cálculos sinistros…

Em síntese, acho que me tenho dado bem com a matemática e com a lógica que se me apresentam nas efemérides a ponto de me atrever a um silogismo :

Se o ser é viatura, então pé na vida e coração a seu vento :

Do Leme ao Pontal ( Tim Maia ) – Tim Maia


Categoria: Crônica, Nas internas
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