Vário do Andaraí

Aduz à brinca, 055, afrontando – o caos, o bruto, a trinca, o deletério, que o piche é quente, veemente, e tu, tu somente, teu solitário império, és quem te leva – a sério.
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HOMEM QUE É HOMEM NÃO CHORA

Tarifado por Vario em 25 julho, 2010

055 em qap e pronto pra cópia

Nos assentos esponjosos da 55, várias senhoritas, senhoras e senhôrinhas já choraram toda qualidadede pranto : do choro hoje-eu-me-racho ao hoje-eu-me-fundo. Entram às vezes já de rosto inchado ou desandam n´água conforme a corrida vai. Eu geralmente fico na minha de piloto sem patente, soldado raso ao mando do silêncio. Só falo quando convocado às ordenanças.

Homem, não. Homem nunca vi chorar. Se chorou, despistou. Nunca vi. Homem que é homem – diz-se – não chora, engole, sufoca na garganta, guenta no osso, como diz o E. Neves. Homem que é homem – reza – diz que é conjuntivite  contraída numa rua empoeirada ao lado de uma vala negra a céu aberto desses subúrbios para cuja desdita os medalhões, os alcaides, os corregedores, as eminências estão…

( Alguém conhece pontuação mais democrática que as reticências ? )

( Vote ! Tergiversei, dei nos descaminhos, errei o itinerário, vai dar mais no taxímetro, leitor, mas no final da corrida eu desconto o desvio)

Falava eu das donas chorosas…Pois bem, ontem entrou na 55 uma senhora muito assim. Não puxei papo. Como eu disse acima, encaramujo nestas horas.

Mas ontem  tive – ah, se tive !  – vontade de dizer a ela que ali em Botafogo, no final da Voluntários da Pátria, a locadora do Cine Clube Estação Botafogo tem filmes do Buster Keaton, do Carlitos, tem quase tudo do Fellini e seus circos e divertimentos de toda ordem ou desordem. Tem muito filme triste lá também – que, se não diverte, distrai : a gente encontra a solidariedade de quem sofra junto, mesmo lá, do lado de dentro da película, em sua sua dor outra, mas dor idem, afinal dor é dor.

Cheguei a ensaiar, titubeei Vinicius, mas não lhe disse que  “é melhor viver do que ser feliz”. Cogitei de lhe contar uma piada de mineiro que ouvi dia desses muito engraçada, mas a segurei entre os dentes, quando ia quase escapando, e, ainda que bem, calei.

Valha-me porém que taxista é raça de negaça : tenteia, mede, bota preço, barganha, desconta, aumenta um tanto, se faz de pouco, rufa, ruge, mete o pé, encara, se safa da onça e vai. E vive-se assim no burlo, no burlesco, no vamo que vamo à tigrada, mistura de mineiro com italiano.

Que fiz eu ?  Clicai aí abaixo, sofredores :

Pra que chorar ( Baden Powell e Vinicius de Moraes ) – Zeca Pagodinho

A senhora atentou ouvido, estancou-se da sangria e serenou. Não sei se foi bom ou mau ajudar a represar as águas  da senhora, mas que importa ? No final vai dar tudo certo mesmo e, mais dia menos dia, o sol, um belo dia, se apaga.


Categoria: Crônica, Diário de Bordo, Parábola
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UM BOLERÃO NA MADRUGADA

Tarifado por Vario em 11 julho, 2010

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La Puerta ( Luis Demetrio ) – Trio Los Tres Ases

De repente me vem uma súbita vontade, uma prostração, de ficar dando voltas na lagoa Rodrigo de Freitas, às 3:30 de uma madrugada qualquer da década de 1950, talvez uma 2a feira de maio.

Eu nem sonhava em ter nascido, mas vou assim mesmo : a viatura vai sacudindo sobre os paralelepípedos, passam dois Cadillacs, um Buick, e, claramente, vejo  Antonio Maria e Vinicius de Moraes mijando numa árvore, às gargalhadas, declamando Castro Alves.

E lá vou eu : perdi a conta do número de voltas que dei ao redor da lagoa. Poucos edifícios e muitas casas, quase todas apagadas, uma ou outra luz acesas, talvez insones de amores não correspondidos. Decoro-lhes as fachadas para tempos de escassez, para o tempo em que o Rio não será mais Rio, que deus me perdoe…

Nestes anos 50, muita coisa está diferente de hoje…Mas o Cristo, que não cansa, é o mesmo, de braços abertos lá nos sumos, caminhando sobre o verde da mata atlântica.

Sinto-me atlântico,  Brasilzão, porque o canal do Jardim de Alah mistura cheiros de mar, de estrelas salobras, de lunas lacustres e damas-da-noite. Sinto-me atlântico, Brazil, com “z”, e dói.

Sou um tipo esquisito que tem saudades do que nem vivi e sinto ciúme – este sentimento torvo dos que projetam sua sem-vergonhice sobre o ser querido – de uns olhos cujo brilho de encantamento eu queria só pra mim. E sinto também outras coisas, coisas e mais coisas. Vai saber, poeta. Me traduz, poeta, ou sufoco nesta aragem nostálgica que me põe rugas e umidade nos cantos dos olhos.

( Ela é linda, mas quando tá de óculos só um bolerão na madrugada dá conta de mim )

Categoria: Catarse, Crônica, Diário de Bordo
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O POLEGAR

Tarifado por Vario em 09 julho, 2010

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Especula a ciência que o surgimento do polegar opositor, dando à mão a preensão de pinça, foi um dos fatores que nos diferenciaram um pouquinho da macacada : pega nisso, pega naquilo, apanha um treco, segura um troço, e vira e revira aos olhos, e cheira, e tateia, e investiga, e perscruta a fruta…Até o dia em que a fruta era vedada, e danou-se a macacada, e a gente foi chutada pra fora do Éden e pra dentro do mundéu pra livrar uns caraminguás com o suor do rosto.

( Eu adoro misturar ciência com religião neste deus-nos-acuda dos diabos ).

Meu falecido tio Wander dizia que a função do polegar é servir de anteparo, de escora, quando duas pessoas vão-se cumprimentar, evitando que as mãos passem batidas uma pela outra. Toca aqui :

- Muito prazer, Vário do Andaraí…
- Prazer é meu, Carolina Bataier…

Sensacional. Meu tio Wander era o 5o.  irmão Marx.

Já a Carolina Bataier misturou as duas teorias, a da ciência e a do meu tio Wander, e usou seu polegar lá no Disléxica Mente para segurar a Máquina de Revelar Destinos Não Cumpridos e dizer coisas que eu nem-sei-que-diga de bom da minha escritura rota. Eu cheguei anteontem de madrugada da rua ( a 55 ainda tava fumegando lá na garagem, escaldando tudo que vira de ruim e lindo nesta cidadela absurda ), fui dar uma fuxicada no blog da jornalista e levei uma tijolada boa no oco dos peitos sob a camisa.

O nada com que possa agradecer a moça é fechar o punho e abrir o polegar num clássico “valeu !”, ou, em acréscimo, distender o mínimo, num hang loose, e colocar à sua disposição a viatura caso ela resolva um dia apararecer por aqui, neste deus-nos-acuda dos diabos da cidadela maravilhosa.

Carolina, você tem um lindo polegar, “leia na minha camisa”.


Categoria: Nas internas
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CORAGEM

Tarifado por Vario em 07 julho, 2010

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Vem, meu bem, que eu abro a janela da 55, e a gente vive de brisa;
Que eu vou sob o arco-íris, e a gente vai vivendo debaixo da ponte.

Clube da Esquina II ( Lô Borges, Márcio Borges, Milton Nascimento ) – Milton Nascimento

Categoria: Camoniano, Catarse, Diário de Bordo, Farsa, Fábula, Nas internas, Parábola, Pavimentação, Trânsito
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HINO AO PENDÃO

Tarifado por Vario em 01 julho, 2010

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É, meu amor desconhecido, “recebe o afeto que se encerra em nosso peito juvenil”, que ele tá guardado aqui mesmo, neste hino em prosa, não a 7 chaves, nem à precisão de senhas, e pois que o Cristo de madrugada está iluminado de verde entre nuvens, aparição fantástica no negro de envolta,  soa intimista, no coração da noite, no meu, sem a pompa hínica das marciais, este belo verso de Olavo Bilac para a melodia de Francisco Braga.

É, meu ignoto amor, recebe-o, assim como se remandiola fosse um tipo de realejo que soprasse de dentro de um sonho só teu esta linda melodia que vem lá dos muito distantes da infância e se gruda como cica de caqui ou pega de abiu nos lábios do tempo que assoviam, e assoviam, e assoviam.

Ouve-la ?

É, minha obscura coisa ( “coisa”, esta palavra-ônibus que nos leva sem destino), ou minha amada terra, recebe-o, o afeto que se encerra e não se encerra, simples assim, como duas fitinhas verde-amarelas flamulando ao vento, ondulando, ao espaço sem fim.

Sim, minha insabida querida, já é o tempo de abrir os ouvidos e atentar para coisas singelas, como um “ora ( direis ?) ouvir estrelas”, ou para o verso da poeta quando diz “beijos no fundo do seu lindo coração que bate tão forte que me espanta de alegria”.

O Cristo tá lindo de verde – sem patriotada alguma. Vem vê-lo.


Categoria: Camoniano, Crônica
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PIEDADE

Tarifado por Vario em 27 junho, 2010

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Esta madrugada tocou no rádio do carro uma música que me fez lembrar que no verão último fui levar um parceiraço pra uma corrida longa, intermunicipal. Na Via Dutra, engarrafou, apesar de estarmos no contrafluxo de ir e vir o frêmito. Nas pistas contrárias, de descida pro centro, o trânsito era como se fora uma imensa corrente travada na palma do Cão, e o Cão sorria seu urdido, pelos cantos da boca, na hora cabalística das 7 – das 7 da matina, 38 à sombra.

De dentro do amarelão, do tarjado azul, eu, distenso, sentado, ancho no ar refrigerado, sobre as nádegas do privilégio, ouvindo a mesma canção que ouvi esta madrugada, fiquei reparando e pensando nesta gente espremida nos ônibus, nas vans, nos trens, dia sobre dia, segunda a sábado,  massa informe indo e vindo, ou apenas indo, indo à intransitivo…Ora, ora. Ora, ora. Ora, ora, esta com certeza não é a gente careta e covarde em volta da lâmpada que o Cazuza canta na ótima Blues da Piedade.

A caramunha dessa gente talvez venha da comida ruim que mal se engole, talvez do sonho breve pois que mal se dorme, do amor incidente mal tangente, desta atmosfera de chumbo em que mal se resfolega, dos esgares das pequenas felicidades efêmeras : queimar uma carne, tomar uma gelada, torcer pra um time, viver até os 30 e depois ir morrendo vida adentro até onde permita Deus entre seus bocejos de tédio da eternidade, lá no alto, bem lá no alto.

Já a coragem e a fortaleza dessa gente – nós da corrente com que Deus e o Diabo disputam um cabo-de-guerrra desde pra sempre – é temperada na forja desta peleja diária.

Vim também pedir piedade, Senhor, piedade pra toda gente, todos nós, simplesmente. Simplesmente elos, todos nós.

Domingo de sol no Rio de Janeiro. Faz um lindo dia.  Dia de descanso  dos homens, mas não de Deus e do Diabo, porque a luta não para.

Tenhamos fé. Fé é tudo, Senhor. Crede em nós.

Blues da Piedade ( Frejat e Cazuza )

Categoria: Catarse, Crônica
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A INVEJA

Tarifado por Vario em 20 junho, 2010

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No parabrisas traseiro do carro da frente, tá lá : “A inveja é uma merda”. Eu que o diga, a inveja é deveras deveras. Mas para abrandar estas deveras, tem a frase do Machado de Assis que diz que “a inveja é uma admiração que peleja”. Genial, né ? É : A inveja é uma merda.

…Acho que não comecei bem, não adentrei bem à crônica. Tentemos sem perífrase, sem vaselina, a seco, no deveras :

Eu tenho uma inveja desgraçada do Chico Buarque. E não é a inveja positiva, a construtiva, a que eleve o caráter, que o soerga com a pompa dissimulada de um soerguimento… Não, não…mas confessar a seco assim também já é maldade. Lubrifiquemos meu deveras com um pouco da baba viscosa da Juliana do Eça : minha inveja é a corrosiva, à corrossiva : beliscão de alicate no fígado, Coca-cola com soda cáustica, gelo e limão galego, Chumbinho – o legítimo – pra Ode Aos Ratos, bote de aranha armadeira, água-viva queimando minhas ilhargas 55, qualquer infusão sulfúrea de pH  a zero…a lira dos sub-reptícios, enfim.

…Tá dito. Pronto, agora adentrei-me bem a crônica, até o talo. Doeu, Zé Bedeu ?

Eu não só queria ter escrito que “seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol” e que “não sei se eu ainda te esqueço de fato”, mas gostaria que ele não os tivesse escrito. Eu queria andar por aí, dizendo coisas bonitas, cheio de mando verde no olhar, as moças suspirando; e queria ele aqui, no assento do amarelão, esmolando a indiferença das senhôrinhas pelos meus castanhos baços do retrovisor – este capiongo servil que encara pra trás. Ele ia ver o que é bom pra tosse daquela excelsitude, o Pindérico.

É…parceirinhas e parceirinhos, a inveja é phueda,  e se escreve é com pH, pH a zero.

*******

Faz uns bons anos, joguei bola com uma rapaziada aí lá no campo do Polytheama. O mando de campo, como tudo, era do Chico, mas, sorte a dele, ele não apareceu. Tinha um comício barbudo na cidade, ele – comentou-se – foi palanquear, e o Polytheama jogou desfalcado. Sorte a dele, porque a cada toque dele, limpo, na bola, de letra, de chapa, de trivela, de calcanhar, ou drible, ou um arremate a gol, uma chaleira, ou rosca, uma simples dominada com uma duas, e lá estaria eu, Gentile, dando-lhe as travas da insignificância com o fundo das minhas chuteiras.

É, Paratodos, sorte a sua….

*******

Eu pego esta última corrida, Andaraí-Alto Gávea, vou pelo elevado da Paulo de Frontin, pelo paradoxo Paulo de Frontin, de sobre cujo concreto a vista se alinda nesta ainda nem bem manhãzinha o sol em feixes oblíquos pelas encostas, os veludos dos mandos verdes  vários dos matos ao pé do Cristo, os casas pobres dos morros do Turano e do Fogueteiro, os imensos postes de transmisão de luz, as torres repetidoras de telefonia, o céu azulando devagarinho todo este Rio aéreo de passado, presente e futuro que se aclara  manhã fresca e se inspira carro adentro, coração amarelo-inveja afora, a 70 por hora, em velocidade de cruzeiro :

Futuros Amantes ( Chico Buarque )

Enquanto toca Futuros Amantes, me esqueço da minha pequeneza e fico, em 3 minutos e pouco de universo, do tamanho do Poeta.

Malgrado todo este fel ressumado, obrigado, Prego.

Categoria: Catarse, Crônica
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ASSIM FALO EU

Tarifado por Vario em 09 junho, 2010

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Então, de hoje há sete, partimos eu e o Zaratustro  para a exposição de fotografias do Pedro Teixeira no Cine Santa Teresa ( Rua Paschoal Carlos Magno, 136 – Largo dos Guimarães – Sta. Taresa ), que vai até o dia 27/06/2010.

Diz a física que o branco é a mistura de todas as cores.  Ora, quem já nasceu alfabetado e decorado na tabuada dos nove e dos nove fora não fica de panga, não panga, não empaca, não manca, toma logo duas branquinhas das Minas Gerais, para limpar a retina e clarear o entendimento do mundo com todas as cores do mundo. E assim o fez Zaratustro.

Assim o fez Zaratustro, e demo-nos rua : subimos pelo Catumbi, que é o melhor caminho para acimar Santa Teresa – essa cidade de interior que enchapela a megalópole do cocoruto quente. A subida pelo Catumbi é a que mais contrasta : a gente sai do túnel Santa Bárbara ou do viaduto do Sambódromo, onde a coisa tá frenética, onde é máquina comendo máquina, onde Co2 é secreção, onde a vida se leva é no grito, passa pelo tobogã ( uhhhhhh, segura a saia do susto, menina ! ), sobe a Paraíso ( não é arranjo literário, trocadilho ou trapaça, é isso mesmo : pra se chegar ao Largo das Neves pelo Catumbi, sobe-se a rua Paraíso ! ) e cá estávamos nós, no Largo das Neves : a pracinha, os botecos, a igrejinha de Nossa Senhora das Neves com a lua espetada no campanário, um espreguiço de cachorro magro, uma moça que a gente quer pra namorada, um antigamente, ô saudade…

Seguimos, sonhando que tinha uma linha de bonde, e tem !, até o Largo dos Guimarães, sonhando que tinha largo, com estação de bonde e guinchos de bonde, e tem !, e assinamos o livro de presença : acima de Vário do Andaraí, tá lá, porque ele assinou antes de mim, Zaratustro Caminha.

A exposição está muito legal, lindas fotos e belas legendas escritas pelo Walter Firmo – lenda encarnada da fotografia que nos deu, a mim e ao Zara, o privilégio de apertar as mãos e de trocar 5 minutos de conversa.

Hoje o Pedro me mandou por email todas as fotos da exposição e todas as legendas escritas pelo Walter. Clicai aqui e senti a pressão, parceirinhas e parceirinhos. Quereis ver mais ? Ide lá, in loco, loucos, e depois me escrevei, me agradecendo pelo que a mim nada se deve.

Depois do dia 27, finda a exposição, posto aqui outras fotos e legendas.

Valeu, tigrada amiga !

Categoria: Diário de Bordo
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ASSIM FALARÁ ZARATUSTRO

Tarifado por Vario em 02 junho, 2010

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Reproduzo abaixo trechos de um email que recebi :

Olá Vário,
Li uma entrevista sua jornal e passei a indicar o seu blog para os amigos. (…). Como novo artista e com a enorme dificuldade de mostrar o trabalho, alguns amigos fotógrafos nos reunimos e fundamos o Rosário de Fotos. Já que não temos espaços nas galerias, trouxemos nossa arte para as ruas e fizemos uma exposição da Rua do Rosário, e agora consegui com o pessoal do Cinesanta em Santa Teresa um espaço para minha primeira exposição : “Enquanto houver cor, haverá poesia”.

Se for possível divulgue no seu blog. (…) Se puder aparecer lá, será no dia 04 de junho às 19 horas. Depois vamos tomar um chope no Mineiro…Te envio o convite. Se puder divulgar seria bem legal!
abs,
Pedro Teixeira


***********************

Caro Pedro Teixeira,

não só vou, como não vou só : vou levando o Zaratustro, pra gente tomar um chope no Mineiro.

Zaratustro é um maluco aqui da área que fala de coisas a beiços formidáveis, de estrelas plasmáticas, de etimologias apócrifas, de bichos extintos , de obscuros atores americanos das décadas de 40 e 50, e tome cachaça aos pitos, bicando toda saudade, dizendo o estado de procedência, em que madeiras envelheceu, e, às vezes, nomeando o alambique.

Conheci o Zaratustro, que é o tipo que se faz conhecer no 1o entreolhar-se, numa 2a feira chuvosa do 5o mês do meu 2o ano de praça, no Boulevard  27 de Setembro, em Vila Isabel. O bulevar é 28, mas ele diz que opera o tempo, que com ele tudo é de véspera, que nasceu de véspera e vai morrer na véspera, deixando todo mundo sem saber como seguir o cortejo que, quando “cadê ?”, já foi, levando-o pro lado midiático da vida.

Eu não sei o que ele quer dizer com “lado midiático da vida” e acho que ele também não. Nâo importa. Levo-o, estátua viva do terno puído, comigo, cheio de tiques e conchavos consigo, bom camarada à beira do balcão, de pé, no sorvo da vida e da teimosa, gogó adentro, goela afora,  cantando seus “psiu” pras mulatas que passam.

Até lá, Pedro…ou, melhor, até aí, em Santa Teresa, que ainda tem quintal, bonde, largos e…aviemos, que hoje já é antevéspera, enquanto ainda tem quintais neste mundo.

Um abraço pra você e pra todo pessoal  ( só tem cascavel chocalhada, hem ? ) do Rosário de Fotos,

Vário do Andaraí.
( Hoje, um mytho; amanhã, uma phraude )

Categoria: Sem categoria
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NA FALTA DE ASSUNTO, PACTUO COM A PALAVRA

Tarifado por Vario em 26 maio, 2010

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Esta noite sonhei que o Tisnado, todo de marrom, calça de tergal marrom, camisa social marrom, sapatos marrons, me assoviou de uma esquina mal iluminada, queria uma corrida pra lugar meio incerto, uma encruzilhada de subúrbio,  a que ia pra pactuar com mais um. Pediu que o esperasse, que pagaria em dobro o tempo de espera, que voltaria acompanhado da alma do contratante, e depois ficariam numa uisqueria do Fashion Mall em São Conrado.

Era sonho, mas eu pensava reto, com arrazoado. Perguntei a ele se a vida – o substantivo, o fenômeno bioquímico – é de Deus; e se o viver – verbo e ação – é coisa dele, Coiso.

Riu o Lanfranho, escanchou-se baio e cambaio no deboche, fez dos chifres dois cachinhos e palitou os dentes com a ponta pontuda da cauda cor de ruindade :

- Pilotinho, pilotinho, tens razão, viver é pactuar. Abrir os olhos, ao acordar, já é pactuar. Mas consola-te, ó simplório, que no teatro da existência,  és o tolo, só isso. Quando muito, és um pascácio maledicente. E só. Nunca cortaste cabeças. Relaxa, que lá embaixo, vou ver se te consigo só um banho-maria pouco fervente pra teu espírito fosco.

O cenário, súbito, mudou. Eu estava num bergantim pirata e vi ao longe uma bandeira portuguesa flamejando num mastro de uma nau em cujo convés  divisei, à luz do encantamento, Padre Antonio Vieira, Fernando Pessoa, Camões, Eça de Queiroz, Miguel Torga, José Saramago, Camilo C Branco e outros a conversar na melhor língua e a tomar  uns destilados das melhores pipas. Botei a faca entre os dentes, mergulhei, bracei mar, as águas efervesciam, e em vão  tentei subir a nau do império lusitano.  Enquanto  me afogava, ouvi uma  voz escarninha ecoando de fundo :

- Pilotinho, pilotinho,  volta pra tua canoa amarela…

…E acordei, acordei sufocando em desânimo.

Este relato do sonho, e o que nele se increve em simbologia evidente, é tudo por amor da palavra, e também porque,  nesta manhã, alheio ou não à minha vontade, eu acordaria com o Nem-Sei-Que-Diga.

Categoria: Catarse, Parábola
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PEÇO LICENÇA

Tarifado por Vario em 20 maio, 2010

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Ô falastrão, ô da bazófia, da jactância, ô da hipérbole, ô fanfarrão, ô todo prosa, da parla troncha, ô charla, ô quixotada, ô matamoros, pinóquio bobo, cale-te-boca, faz-e-acontece, do vomitório, ô conversinha, olha diante, presta atenção, que o carro porra, no no-da-frente, ô nove-horas, galã anão, ô muquinfa, ô testa grande, ô de-abano, escuta um tanto, lacra a loquela, ô da errância, ô puxa-puxa, vê-se-te-enxerga, sopra pra dentro, ô flatulento, pavão com tinha, das penas mofas, vaniloquente, five de ases, pneu careca, boca burlesca, truque manjado, ô patetância, ô ninguém-merece, ô taxista, ô nasceu-pra-quê-?, ô da tigrada, desaprumado, conversa mole, ô não-me-cansa, pobre diacho, se liga ontem, olha o semáforo, cuida do trânsito, óia o busão, canastrão, espicha-ouvido, atenta ao breque, fale pra si, soliloquie, pensa um cadinho, costura os beiços, ô da gabola, já deu a hora, ô bola-fora, arrime-se, despiroquete, e  deixe a moça, em paz, ô contumaz, ouvir Zé Keti.

Peço Licença ( Zé Keti ) – Zé Keti

Categoria: Sem categoria
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CANTO 55 – UMA FOTOGRAFIA

Tarifado por Vario em 17 maio, 2010

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Um dia, depois de muito penar, de muito mourejar, canto uma guisa que preste, talvez para Heloísa talvez para Celeste.
Quem sabe uma elegia para Sofia ou uma nênia para Efigênia ?
Vou, matuto, meto a broca na cachola, e jorra um soneto para Carola.
Boquejo épico, assimétrico, mas contido, bem medido : uma pavana para Eliana, uma cantata para Renata.
Um réquiem para alguém, prum amor natimorto, torto, desprezado, enjeitado, filho largado no meio-fio, no frio, no fundo do mundo.

Então eu mundo, confundo e assovio…

…Este canto sandio, bandida, quer se chame Rosicler, quer se chame Margarida, querida, este canto 55,  de timbre sintético, sem vinco, mimético, um número, um ninguém, meu bem, um nada, mais um, além,  além do mais, mais um, um baldio, na madrugada, a despistar, com elegância, a errância de um defunto sadio.

Então eu assunto e assovio e espalho o meu tresvario : à espera dessa hora, Aurora, desse dia, Musa erradia, ouço, convicto, a sua fotografia.

Fotografia ( Tom Jobim ) – Gal Costa

Ps. Parceirinha e Parceirinho, é pra ouvir a plenos pulmões !!!!!!!

Categoria: Camoniano, Catarse
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PERCO O AMIGO, MAS NÃO PERCO A PIADA

Tarifado por Vario em 14 maio, 2010

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Era acho que em Quintino, por ali, nas arredondezas, não sei se do lado lá ou do lado de cá da linha, da linha do trem, da linha da vida. Quintino Boicaiúva, político republicano e outros bichos mais, hoje é nome de bairro do subúrbio, terra do Zico, o Galinho, um dos maiores que já vi jogar, nos dois pés…Filmei os dois vindo por trás, pelos retrovisores, um pela direita, outro pela esquerda. Não dava pra nada. Era o “perdeu”, meu primeiro “perdeu” :

- Perdeu, piloto…perdeu…
- Tran…quilo…fica frio…leva até as cuecas…tão cagadas mermo…

A pilantragem riu. Eu também. Perco o amigo mas não perco a piada.

Jogo Proibido ( Carlinhos e Lino Roberto ) - Bezerra da Silva

Categoria: Diário de Bordo, Parábola
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SAI DESSA, 55

Tarifado por Vario em 09 maio, 2010

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SAI DESSA, 55

Quem pode com a sorte ?
Quem pode com a morte ?
Quem pode com a bala  que vem de revesguelho ?
Quem pode com o espelho ?
Com a verdade, que lhe diz ao que veio
E escavaca a lataria e faz sangria no sistema de freio ?

Quem pode com a buzina ?
Quem pode com a sina ?
Quem pode com o tempo – usina infinita de finitude ?
Quem pode com o amiúde
Rumor dos motores na racha dos ouvidos seus ?
Com a roda quadrada, com o universo sem fundo, com a ausência de Deus ?

( Eu sei. Cê sabe. Todo mundo se assombra e segura as pontas.
Afinal, quem pode, quem pode com o afinal de contas ? )

Categoria: Camoniano
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