Vário do Andaraí

Aduz à brinca, 055, afrontando – o caos, o bruto, a trinca, o deletério, que o piche é quente, veemente, e tu, tu somente, teu solitário império, és quem te leva – a sério.
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LUIZ RAUL MACHADO

Tarifado por Vario em 19 maio, 2012

055 em qap e pronto pra cópia

 

O jornalista e escritor Luiz Raul Machado escreveu um comentário sobre o livro Passatempos e mo enviou por email. A livre e espontânea generosidade amiga do amigo desvanesce qualquer consideração que se possa fazer de autopromoção. Me desobrigo de mais.

Muito obrigado, Luiz Raul. Me obrigo de mais.

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BELOS JOGOS DE PALAVRAS

Quando a Editora Dimensão – através de Antonieta Cunha – publicou em 2009 o livro A máquina de revelar destinos não cumpridos, muita gente se perguntou: quem é este autor que se esconde atrás do pseudônimo Vário do Andaraí ? Nem tão escondido assim, ele deu entrevista para Mauro Ventura na revista do Globo (17/01/2010) e foi finalista do prêmio Jabuti. Ficou-se sabendo que ele faz boxe e pilota um táxi pelo Rio de Janeiro. E que escreve. E como.

Agora, pela Editora da PUC Goiás, ele lança outro livro de contos. Outro tiro certeiro. Passatempos não é uma simples reunião de contos. Tem uma idéia interessantíssima por trás. Em 20 textos bem elaborados, passeia por jogos e brincadeiras nada infantis. Lá estão a pipa, o truco, a amarelinha, o gude, o gamão, o mico preto e outros. Cada passatempo traz uma surpresa. Cada conto é retirado de um livro imaginário de um autor-quase-personagem, inclusive do próprio Vário. Que é vário e poderoso, jogando inclusive voltarete com Machado, Go com Kafka, xadrez com Borges, bilhar com… Epa. Já estou contando o que devia ser surpresa para o leitor. É que não resisti a nomear alguns parentes literários do autor, além de Lima Barreto, João Antônio, Dalton Trevisan, Aldir Blanc e tantos outros que se debruçam nos subúrbios da cidade e da alma.

Grande leitor, Vário do Andaraí prova que é. Leitor atento de livros fundamentais, ele joga os dados, brinca nas onze, vai do inferno ao céu na amarelinha da vida, apresenta uma introdução depois do primeiro conto e fecha o livro com um texto em que arma até uma pequena teoria da leitura.

O leitor de Passatempos termina o livro já preparando a releitura, que certamente trará novas surpresas. Como diz o próprio Vário: “Este é um passatempo em que não há perdedores. Entrou, já ganhou”. Jogo feito, novo jogo. Com este livro, Vário do Andaraí prova que é um caso sério de literatura bem jogada.

Luiz Raul Machado



Categoria: Nas internas, Trânsito
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ESTIMADA ADVERSIDADE

Tarifado por Vario em 08 maio, 2012

055 em qap e pronto pra cópia

 

Estimada Adversidade,

Da última vez que nos encontramos,  você fez um grande inventário a respeito de sua capacidade de atravancar as coisas : desde solar o bolo da confeiteira a explodir aviões ou submergir cidades. Pois bem, seja por conta de sua eloquência sempre coerente, seja por conta do adiantado da hora, porque no dia seguinte eu teria que acordar cedo, preferi me calar.

Quero que saiba, agora que dispus de algum tempo para lhe escrever em resposta ( e a escrita tem essa enorme virtude de dar ordenamento e clarividência aos pensamentos )  que meu silêncio não foi a admissão de que não haja argumentos para refutá-la, nem tampouco foi o cansaço dos que acabam por se curvar a seus imperativos. Não.

O bolo da confeiteira solou ? Ela fará outro. Há visitas queridas na sala que vieram de longe. É domingo. Ninguém está com tanta pressa assim ( muito embora você sempre fale com soberba e com um sorriso irônico nos cantos da boca sobre sua enorme habilidade de furtar tempo às pessoas ). Comer-se-á bolo com café, quer você queira ou não. E, ainda que você sole o segundo, ainda assim, comer-se-á bolo com café. Como você vai querer seu café ? Com açúcar, adoçante ou amargo ? Amargo, presumo.

Houve muito desengano e desesperança  na tragédia. De fato, você tem uma incrível capacidade de luta. Contabilizaram-se perdas muitas e grandes, a as dores foram deveras. Mas a partir do primeiro minuto, você  notou, como vem notando há milênios, formou-se, quase que espontaneamente, uma reação para desanimar esse seu riso cínico. ( ai, desculpe, não quero levar minhas ponderações pro lado pessoal, mas é que às vezes há que ser um pouco áspero, senão você deita e rola).

Não posso me alongar mais, porque você, incansável, me roubou tempo para eu ir adiante mais minucioso aqui na cartinha. Mas creio que já foi o suficiente para você – sabida que só – entender que somos, paradoxalmente, contendores e amigos inseparáveis, e que nossa amizade, mesmo sendo cheia de dissimulações, a mim é imprescindível.

Conto demais com você.

Cordialmente,
Vário do Andaraí.
ps. Sob luz de velas ou sob a lâmpada de Thomas Edson, Dom Quixote de La Mancha será lido pelos tempos afora. Pense nisso.

Categoria: Catarse, Crônica, Parábola
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TOM JOBIM

Tarifado por Vario em 04 maio, 2012

055 em qap e pronto pra cópia

 

“O resto é mar” talvez seja um dos maiores versos que há. E não foi bastante o poder de síntese com que em quatro simples palavras chegou-se ao que não se consegue explicar por análises : ao indestrinçável : um mar musicado de mar.

“O resto é mar” é música por palavras – porque fala não à razão, mas à intuição ou algo do tipo.

O verso faz sentido como carta de suicida; faz sentido se dito às altas madrugadas, numa mesa de bar, antes que se peça a conta; faz sentido como epígrafe de uma extensa monografia de filosofia ou oceanografia; faz sentido aos tristes e aos contentes de amor.

Faz sentido com a grandeza da vida e com o seu sem sentido.

Em quase toda sua obra Tom Jobim alcançou o ideal clássico do equilíbrio e da beleza : cada canção é como se fosse uma escultura intáctil de 3, 4 minutos que se pode levar dentro de um assovio, dentro de um cantarolar distraído.

Que falta a surpresa de uma nova obra-prima me faz enquanto a vida segue, e pra trás e pra frente “o resto é mar”.

 

 


Categoria: Crônica
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PRECE À MANHÃZINHA

Tarifado por Vario em 29 abril, 2012

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Meu deus, protejei-me de mim, de todo mal que eu possa me fazer, de toda intolerância de mim para comigo, de todo este remorso, rancor, malícia, medo, inveja e cobiça que pesa sobre este corpo que se vai curvando lento dentro desta sarabanda fauvista, a que chamamos vida, como a humildar-se à força do empuxo para o chão – o chão de vosso mundo, meu deus.

Cuidai de mim, senhor meu deus, criatura quanta, ainda que não crendo nem descrendo de vós, entre os pores e os nasceres do sol, apassiva-se ante os ditames do consórcio que entre mim e vós ora maravilha-se, ora derriba-se, à fé, contudo e permanente.

Perserveremo-nos, rogo-vos, na vigília de zelar por mim e por vós, pois que este Ser-Se, transitório, frágil, vário e precário, chega à janela, à manhãzinha chuvosa e ruidosa, aguando telhados e ruas, inspira-se de vós – deste cheiro de chuva sobre a cidade dormida e transida -, sente-se um humilde deus suburbano e suplica por vós e por mim o perdão da altivez e da constrição que em nosso nome derrogo.


Categoria: Catarse, Crônica, Parábola
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MIGUEL DE CERVANTES

Tarifado por Vario em 21 abril, 2012

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( Quando eu era moleque, me lembro bem, tinha ocasiões em que sobre o choro vinha uma risada, e eu não sabia que lado tomar. Aí ficava irado, porque o riso desmontava o drama. E mesmo que acabasse por optar pela máscara do choro naquela hora, eu sabia que a gaiatice é quem tinha de fato vencido ).

Neste mundo barafundo, Dom Quixote e Sancho Pança  estão, desde sempre e para sempre, dentro da gente, chamando à vida – ora ilusória, oral real. Entre nobres, estalajadeiros, nigromantes, alcaides, condenados, trovadores, desvalidos, prostitutas, hortelãos e farsantes de feira desconhecemos que papel é o nosso, e, contraditoriamente, nos encontramos.

O livro mais revolucionário de todos os tempos convoca a armas cenográficas : espadas de lata e escudos de papelão.

( Ao escrever a linha acima, me dou conta do tamanho da obra; e lúcido como nunca estive, não sei se rio, não sei se choro ).

Categoria: Catarse, Crônica
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JOÃO CABRAL I

Tarifado por Vario em 19 abril, 2012

055 em qap e pronto pra cópia

 

Do esquadro, a pedra de rapadura.
Do antilirismo, a baba do cacto.
Da xerofilia, a farinha-d´água.

E do homem, o antes do homem, o tendão retenso.
E do bicho, o antes do bicho, a palavra bicho.
E do mar, o antes do mar, o Capibaribe.

 

 

 

 

Categoria: Camoniano
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RUBEM BRAGA

Tarifado por Vario em 14 abril, 2012

055 em qap e pronto pra cópia

Rubem Braga – cronista e “caçador de brisas e tristezas” – sabia os nomes de um monte de coisas – hoje talvez inúteis.

( Mas sabia como ninguém a diferença entre “melancolia”, “nostalgia” e “desespero”).

Conhecia muitos nomes de passarinhos e de árvores. Hoje, naturalmente, o léxico é outro, pois o tempo passa, muda o cenário e os homens para, afinal de contas, levar-nos ao inominável do afinal de contas.

Respirar da atmosfera limpa do dicionário poético e atemporal do Velho Braga seus passarinhos e árvores, nos dias em que estou desarvorado, é a certeza de reaprender sempre novos, novíssimos, vocabulários.

 ( Aquela árvore é o tamboril, aquele passarinho é cambaxirra e o nome daquele boi de lote é Noturno – coisas dele, só dele. )

 

 

Categoria: Crônica
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ESPN BRASIL – O BRASIL DA COPA DO BRASIL

Tarifado por Vario em 13 abril, 2012

055 em qap e pronto pra cópia

 

Sábado próximo, 14/04, às 21:30h, canal ESPN Brasil, no programa O Brasil da Copa do Brasil, venha dar um rolé na 055 com este beletrista cambaio e com o jornalista Rubens Pozzi.

( Me desculpo de antemão pelas minhas barbeiragens com a língua, pelas cacofonias, pelos atropelamentos gramaticais e por esta minha fotogenia lamentável ).

*********

Valeu aos batutas – todos muitíssimo afáveis.

 Rubens Pozzi : Jornalista – e “zagueiro de garantir resultados”, como ele autodefiniu sua função nas quatro linhas das peladas domingueiras. ( A expressão “zagueiro de garantir resultados” induz à objetividade ou ao eufemismo. Por via das dúvidas e por conta dessa garantia, se um dia eu jogar contra ele, vou pra goleiro, lá no outro lado do campo : eu é que não quero ser um resultado…);

Luís Ribeiro : câmera;

Wesley Montez : som;

Henrique Montez : som;

Rachel Belo : produtora.

 


Categoria: Diário de Bordo, Pavimentação, Trânsito
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PADRE ANTÔNIO VIEIRA

Tarifado por Vario em 11 abril, 2012

055 em qap e pronto pra cópia

 

Teu vulto, imenso vulto, esta sombra curva sobre a parede da cela,
Leva à palavra o fulgor da fé no Verbo, à luz exígua de uma  vela.

 


Categoria: Camoniano, Crônica
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EUCLIDES DA CUNHA

Tarifado por Vario em 04 abril, 2012

055 em qap e pronto pra cópia

 

Sobre a terra, a víbora condoreira e a pedra eloquente.
Sobre o homem, a miséria oratória e a fé veemente.
Sobre a luta, o discurso da vida à morte num repente.

E o sol, a pino sobre as águas, reverbera teu silêncio por léguas e léguas além do encharcado do Cocorobó.

Categoria: Camoniano
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MANUEL BANDEIRA

Tarifado por Vario em 01 abril, 2012

055 em qap e pronto pra cópia

 

Distraído da vida, Poeta do Castelo, assovias no beco.
Mas o beco faz eco – acorde com que acordas a manhã :

Paisagem, Glória, baía,  linha do horizonte – tua música albarrã.

Categoria: Camoniano
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MACHADO DE ASSIS

Tarifado por Vario em 24 março, 2012

055 em qap e pronto pra cópia

 

No salão iluminado, talheres e louças retinem. Os olhos das senhoras e senhoritas movem-se com a polca. Os senhores dizem seriedades de casacas.

Ao canto, um homem gago observa e arquiteta uma travessura.

Categoria: Crônica, Fábula
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FILOSOFIAS SONÂMBULAS

Tarifado por Vario em 11 março, 2012

055 em qap e pronto pra cópia

 

Bom é entrar nas madrugadas pelos desertos da cidade – orla, floresta, condomínio bacana, subúrbio, centro antigo, Barra moderna – ouvindo Futuros Amantes :

“(…) O amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio (…)“

Ai de mim, Andaraí; ai de nós, ermos assim, ainda não submersos.

O que nos urge tanto e tanto ? Há que se correr, diz a Máquina. Há que se ficar esperto, dizem os radares e câmeras. Querem é nos deixar doidos…


 **************

Parei num posto de gnv, dentro de um intrincado de Olaria. Um gorducho, lá no seu canto, com toda calma, como um rito cumprido num mundo pessoal e alheio, dava um trato no seu Santanão impecável. De fundo, tocando baixinho no rádio da sua viatura, “Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui….”

De cara, achei engraçada a cena, quase cinema. Depois, já de volta à pista, fiquei matutando, matutando, matutando… : Ele deveria saber onde eu estou, Vário; Ele deveria saber onde estás, gorducho; Ele deveria saber onde cada um de nós estamos, senhores administradores da ordem urbana; mas compreendi que a súplica, aparentemente sem sentido, é todo coerência.

Há que se correr, diz a Máquina; há que se ficar esperto, dizem os pardais; há que se pedir existência, diz a canção. Querem é nos deixar doidos, místicos… ou forâneos na resignação de amores tardos.

“(…) O amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio (…)”


Categoria: Crônica, Diário de Bordo
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DURMA-SE COM UM BARULHO DESTES

Tarifado por Vario em 29 fevereiro, 2012

055 em qap e pronto pra cópia

 

Rio de Janeiro, madrugada de domingo pra 2a, 3h e tal, 29 graus na Zona sul, 31 graus na zona norte.

Previsão do tempo até domingo próximo : a laje do inferno.

Pros lados de Bangu e adjacências, muita gente de colchonete ou cadeira de praia dormindo na calçada de casa.

O capeta passa férias aqui. Quem quiser com ele pactuar pode vir. Dizem que é simpático e usa sapato bicolor.

 

 

Categoria: Crônica, Diário de Bordo
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