Vário do Andaraí

Aduz à brinca, 055, afrontando – o caos, o bruto, a trinca, o deletério, que o piche é quente, veemente, e tu, tu somente, teu solitário império, és quem te leva – a sério.
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PERISCÓPIO DO POVO

Tarifado por Vario em 07 março, 2010

055 em qap e pronto pra cópia

É…, tigrada…, hoje choveu 7 dias e 7 noites.  Como é que cabe tanta água no céu, não sei. Um toró bíblico desses, que é nada perto de catástrofes como a do Haiti ou a da tsunami de 2004, faz a gente pensar sobre  vaidades e veleidades, fidúcias e fidalguias.

Deixo os amigos com este belo trecho do Sermão da Primeira Dominga do Advento, do inigualável Padre Antonio Vieira, que X.F., 42, prostituído e drogado, resumiria num “quem dorme de favor não estica as pernas” :

“Como pode ser que coubessem em tão pequeno lugar tantos animais, tão grandes e tão feros? O leão, para quem toda a Líbia era pouca campanha; a águia, para quem todo o ar era pouca esfera; o touro, que não cabia na praça; o tigre, que não cabia no bosque; o elefante, que não cabia em si mesmo. Que todos estes animais e tantos outros de igual fereza e grandeza coubessem juntos em uma arca tão pequena?! Sim, cabiam todos, porque, ainda que a arca era pequena, a tempestade era grande”.


Categoria: Diário de Bordo, Parábola
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QUASE TÃO BOM QUANTO O SILÊNCIO

Tarifado por Vario em 04 março, 2010

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Depois de muitos dias de calor brabo, de sufoco, de sol insalubre, Polifemo dum olho desarvorado de vermelho e roxo, botando seu terror a dia claro, veio um vento, um alento, uma viração, um carinho fresco do sul, do céu, dos 7 céus, quase um milagre, um sopro de anis e anil sobre a cidade, e a cidade – ah, minha maldita e amada cidade – voltou a ser cidade, lugar de gente, e não um criadouro de insetos.

Desliguem-se os compressores dos ares-condicionados, a vibração contínua dos motores, a patologia de fundo, o zumbido zumbi, e abram-se as janelas para os 9 ventos : lestadas, sudoestes, mistrais, sudestes, bóreas e os mais.

Entra. Vamo dar um rolé. Não ligo o taxímetro. Simbora. Entra…Vamo…

Nas orlas, o ar chega a estar branco de maresia, porque o mar ressacou, zangou, espumou de raiva e serenou. No Alto da Boa Vista, a espaços, vindas das entranhas do verdão escuro da madrugada, tem exalações de damas-da-noite insuflando seu cestrum nocturnum nos pneumos do Bandeira, na gaitinha do Ary.

Bota no volume máximo aí, e vem. É quase tão bom quanto o silêncio.

Na Baixa do Sapateiro  ( Ary Barroso ) – Rosa Passos

Produtor: Almir Chediak

Armando Marçal: percussão
Carlos Malta: flautas
Erivelton Silva: bateria
Hamleto Stamato: piano
Idriss Boudrioua: sax alto
Jorge Helder: baixo
Lula Galvão: violão, arranjos
Marco Brito: piano
Rosa Passos: violão, arranjos
Sérgio Galvão: sax soprano
Zé Nogueira: sax soprano


“…frajola”, “pedi a mão não quis dar, fugiu”, “amor, ai, ai, amor bobagem que a gente não explica, ai, ai”, “prova um bocadinho, oi, fica envenenado, oi, e pro resto da vida um tal de sofrer, olará, olerê”.

Entra. Vem. Vamo dar um rolé por uma cidade maravilhosa antes que acabe em fogo – ou em águas salgadas.

Categoria: Camoniano, Catarse, Crônica, Pavimentação
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MORA NA FISOFOLIA

Tarifado por Vario em 27 fevereiro, 2010

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Que mais nos resta senão,
Posto que a vida seja uma festa,
Ou se a vida lesta presta ou não,
Andar para frente, à contramão,
Enquanto tudo se afasta ?

Para bom entenderasta,
Meia empalação é besta :

Quando bebo, vou de táxi.


Filosofia do Samba – Candeia

Categoria: Camoniano, Parábola
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ENQUETE

Tarifado por Vario em 20 fevereiro, 2010

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De repente tem um alemão da Stasi caminhando passos duros a seu redor, numa sala escura e gélida de paredes riscadas por filetes de água pútrida e ferrugem, e uma luz forte nos seus cornos :

- Qual sua canção preferida do Tom Jobim ?

Você tem que responder. É aconselhável que você responda. Há uma frente de trabalhos forçados ao norte assentando uma estrada de ferro que vai ligar a cidade de Absurdenburg a Esdruxulenberg. Não se sabe se alguém voltou ou voltará de lá, que faz um frio terrível de literatura russa e a ração é de coelho.

Ninguém volta.

Mesmo dentro de um enredo assustador e kafkiano desses, é provável que eu hesitasse um segundo para optar por uma do Antonio Brasileiro :

- …Hum…Janelas Abertas…hum…Não ! não… Se Todos Fossem Iguais a Você…hum…pera…me deixa pensar um instante – a voz trêmula de medo e de querendo certidão comigo mesmo.

- Es würde besser dass Sie sich entscheiden. Seinen Zeit wird zur Ende bekommen ( É bom que o senhor se decida…seu tempo está se esgotando [ Meu filho, que sabe alemão, traduziu para mim ] ) – diria o Fritz, dentro de um casaco de couro preto daqueles que vão até os joelhos  e passando base incolor nas unhas cínicas e bem tratadas.

Se Todos Fossem Iguais a Você – T Jobim & V Moraes – Gal Costa

De ditatura, nem que fosse como esta, em que a gente é espremido por fazer uma escolha única, mesmo que de prazer, sei lá, acho que tô foraço…Sei lá…Tô em dúvida.

***********

Se você por esses dias entrou num táxi e está reconhecendo este escrutínio comédia, era eu o piloto-agente da Stasi !!!!!!!!!!!!!!!!

Categoria: Diário de Bordo, Parábola, Trânsito
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PRETEXTO VERDE

Tarifado por Vario em 11 fevereiro, 2010

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Eu poderia dizer que os olhos verdes da moça, verde inaudito, piscando ilusões, são borboletas a pestanejar o descompasso das sístoles e diástoles de quem a olha descuidado. Ou, à simbolista, me perguntar :…ou seriam um chá, hortelã e absinto, que deixa a gente assim, orbitando uma revoada de papagaios, jandaias, maritacas, gorgolejando o globo glauco do porvir ?

São só metáforas ruins pretextando ótima música de fundo para uma corrida ecológica ( do Largo do Machado até Campo Grande ) aos 55 ventos.

O convite tá feito. Aperte o play.

Forever Green – Tom Jobim

Categoria: Camoniano, Catarse, Crônica
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ENDEREÇO CERTO

Tarifado por Vario em 01 fevereiro, 2010

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- Em Botafogo, cê pega a São Clemente, quebra à esquerda na Real Grandeza, e, lá no fim, no fim da Real Grandeza, à esquerda, é o cemitério, o São João Batista.

O fato de no fim da Real Grandeza estar a morte, a cidade dos mortos, cujo nome é o de um santo batista, e tudo isso dentro de um bairro cujo nome é um imperativo ao fogo, pode ser uma ironia, uma simbologia ou uma instância ou circunstância a um mistifório de filosofias – o cinismo, o hedonismo, o estoicismo.

E a cidade, estendida e lânguida, em seu triclínio greco-romano, distrai-se do calor inclemente chupando uvas e cochilando à brisa do abanador feito com penas de cauda de pavão que seus cativos adejam.

Categoria: Catarse, Parábola
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DIÁSPORA

Tarifado por Vario em 24 janeiro, 2010

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Pela matéria do Mauro Ventura que saiu na revista de O Globo no domingo último ( 17/01/10 ), um monte de amigos que estavam dentro do buraco negro da diáspora dos dias corridos deste mundo imenso dentro desta cidade maior que este mundo imenso  escapou do repuxo cósmico, entrou em contato, mandou email e telefone.

Rapaziada, que bom sabê-los vivos e com saúde. Uma coisa esquisita parafusa no sentimento da gente, e só um poeta, desses que andam fazendo falta, poderia achar a palavra certa, o gesto exato. Apesar de estar longe de ser um poeta, sobretudo desses que andam fazendo falta, modestamente vário, brindo a isto, soergo meu copo imaginário : à nossa, Tigrada !

Liguei pro L. , neto de uma grande poeta, dessas que andam fazendo falta, e filho de uma grande atriz. Modesto, ele me diz que anda estudando física – a quântica, a mecânica, a atômica, a subparticular – como amador, me diz coisas interessantíssimas sobre a instabilidade do ser – um dilema insolúvel e pré-socrático da filosofia, e por agora ( nas incertezas do agora científico ) meio que confirmado pelas exatas :

- “é…quer dizer…parece que sim…tudo indica…mas, vai saber…”, diz a ciência, ” talvez um dia, quem sabe…”

E o L. completa dizendo que W Shakespeare foi quase exato em Hamlet, cometeu só um errinho no uso da conjunção, “…Não é ´ser OU não ser, eis a questão´, é ser E não ser, eis a questão”.

Disse-me outras coisas de ordem existencial, mas pessoais, e não vou publicar aqui,  que tornaram a conversa um ótimo reencontro – de vozes.

Valeu, L., pelos bons minutos – e/ou anos – de conversa.

Ouçamos um pouco de música, sem dúvida, a maior das artes, que diz tudo sem dizer :

T. Jobim & V Moraes – Gal Costa

O que a obra-prima do T Jobim e V de Moraes tem a ver com física quântica, com poetas desses que andam fazendo falta, com o tempo e sua força dispersiva ?


O acorde impressionista e suspensivo sobre a palavra “dor” da canção e a última frase melódica “nesta derradeira primavera”  explicam tudo – ou absolutamente tudo.

Categoria: Crônica
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SÃO SEBASTIÃO

Tarifado por Vario em 20 janeiro, 2010

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Freguesia,

O certo é certo. O errado, érrado. Certo ? Errado mas certo, tigrada, porque, proparoxítono, exoro : liberdade poética, minha São Sebastião, sobretudo no Andaraí, inda mais em Cascadura.

Já não há mais inocentes no Leblon. Lamento, Senhor Carlos.

( O dia passou voado em há fazeres e afazeres. Depois cochilei, mas acordei a tempo, peguei a cantareira no pulo, do píer pra bordo, quando ela partia pra Paquetá.

Republico aqui um texto sobre a cidade, de dentro da barca, passando ao largo do piscinão de Ramos )

Valeu !!!!!!

Categoria: Trânsito
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DESCULPE A NOSSA FALHA

Tarifado por Vario em 19 janeiro, 2010

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Freguesia,

Devido a um problema na antena de recepção da 055,  algumas chamadas chegaram com muito qrm ( ruído de fundo ) e os emailes dos remetentes não chegaram à viatura.

Peço portanto àqueles que preencheram o campo “email” do formulário “entre em contato” que esperem até eu resolver esta pequena ingresia ( ou “inglesia”, como prefere um antigo conhecido meu ) e entrem em contato novamente colocando o email no corpo da mensagem, ou façam um comentário qualquer em qualquer um dos textos, porque a parte de comentários da viatura tá funcionando que é uma beleza, e o email do remetente não é publicado.

Ângela ( que citou Manoel de Barros ), Eduardo ( do Grajaú ), Seré ( Ou Baiano ), Leitora anônima do interior, Lopes ( fala, meu camarada ! Beleza ? Há quanto tempo ! Mas não faz 30 anos que não nos falamos, não…O tempo tá bagunçando essa inteligência brilhante aí ? ), FishFace ( fala, meu ala esquerdo, tempaço ! Não sou mais Cornface.  Hoje tô mais pra BroaFace ou AngumoleFace ), Vítor  ( de Realengo) e demais amabilíssimos ps´s ( passageiros ), reitero o parágrafo anterior e peço mil desculpas.

Vário do Andaraí
( hoje, um Mytho; amanhã, uma Phraude )

Categoria: Nas internas
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CARTA ABERTA II

Tarifado por Vario em 16 janeiro, 2010

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Alô, Mauro !

Obrigado pela generosidade e gentileza.

Esta madrugada, por volta das 3:30, as tracejantes, na altura de Manguinhos, na Brasil, passavam trincadaças como mutações genéticas, cruzamento de berne com vaga-lume aceso de vermelho, riscando a noite, procurando carne que cavucar e depositar sua larva de morte. Me deu um esconjuro no corpo, aquele a-morte-passou-por-perto, e eu, que estava sozinho na viatura, não tinha ninguém em quem tocar e dizer “sai morte, que eu tô bem forte…”, matutei, “Será que eu não chego ao domingo, maluco ?”

Cheguei sobrevívido.

Bom, você me pediu que eu recebesse bem na 55 seus leitores com dois textos caprichados. Lavei o carro, poli, aspirei, borrifei capim-cidreira no salão e… mamona nos pneus : postei UM TRIBUTO e esta cartinha aberta aqui em que relaciono abaixo alguns textos passados que servem de abridores de portas da viatura a dizer “Bom dia, Freguesia, eis meu desvelos, meu caprichos, que talvez não passem de um café ralo com que se recebe em casa humilde, mas coados no meu melhor de mim”

Um abço,
055.

ps1. Assim que o tempo der uma refrescada, quem sabe abril, vou te ligar pra gente fazer um sparringuizinho lá na Santa Rosa. O Léo Cunha disse que também vai.

ps2. Valeu, Léo !


NOS CANOS

SOBRE AS PONTES

BÍBLICAS II

BETSABÉ

FELIZ DA VIDA

OUTRO VAPOR BARATO

ESTRANHOS NA NOITE

Categoria: Crônica, Pavimentação, Trânsito
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UM TRIBUTO

Tarifado por Vario em 16 janeiro, 2010

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( DO LIVRO A MÁQUINA DE REVELAR DESTINOS NÃO CUMPRIDOS )

Peguei, pela cooperativa, uma passageira na travessa Soledadade.

( Travessa Soledade é um logradouro, mas “Travessa Soledade é um logradouro” é poesia )

Era o início de uma tarde de fins de agosto, se não me falha a memória. Uma frente fria havia acabado deixar a cidade depois de três dias de faxina. Ainda não era primavera, mas era. Tinha que ser. Tem que ser.

Ela ia pro forte do Leme. Duas vezes por semana ela faz esta corrida. Sei disto porque sempre ouço a solicitação pelo rádio da cooperativa, mas nunca fizera esta corrida com ela. Tomei o itinerário pedido, de pegar Botafogo, e, depois, pelo Túnel Velho, desembocar no Leme, direto, sem beirar a praia de Copacabana.

Eu tinha acabado de montar um cd do Tom Jobim dos seus clássicos e obras-primas a partir de vários originais que tenho em casa (como se fosse possível fazer uma seleção de clássicos e obras-primas deste Brasileiro que tanto bem faz e fez à gente…).

Silentes e reverentes, ela não deu um pio, e eu também não.

Quando saímos do túnel Rebouças, a lagoa Rodrigo de Freitas embrulhou tudo : a paisagem e a música se jogaram sobre os sentidos : o espelho das águas remexido pelo vento, as montanhas verdes, o dia claro, o céu limpinho de azul, matizado de todos os azuis que há – e dos que não há, e as nuvens, esparsas e ralas, transmudando-se, tocadas pela brisa fresca, em sabiá, em roseira, em macuco, em borzeguim, em claves de sol, em acordes de luz. E gente feliz caminhando, feliz correndo, bicicletas ziguezagueando contentamento, casais felizes, crianças em pleonasmos de felicidade e o morro Dois Irmãos lá ao fundo doendo feliz dentro da gente – da gente que nem merece tanto bem assim.

A cidade estava feliz : “minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro”

A moça então pediu que eu tomasse outro caminho, um mais longo, que chegasse ao Leme margeando toda praia de Copacabana. Normalmente eu estranharia, mas entendi tudo na hora, porque o que ela queria era exatamente o que eu também queria : passear – passear mais um pouquinho dentro do sonho antes do compromisso com a vida real.

Silentes e reverentes, à orla de Copa, toda exalação mágica se repetiu : “Rio, teu mar, praias sem fim”

Ao chegarmos, ela deu um suspiro, de desafogo – um suspiro de como quem admitisse ao final do suspirar, “amo” :

- Que corrida maravilhosa o senhor me deu…
- Eu não, ele.

Ah, Poeta, não falo pelos outros, porque dos outros não sei, falo por mim, por minzinho : que dívida de gratidão tenho impagável por tanta coisa bonita que musicou tantas horas da minha vida – as de amor, as que pareciam de amor, as de desamor e as de tantas outras coisas tantas.

Obrigado.

Categoria: Crônica
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ALEGRIA E MELANCOLIA – LEGENDAS INÚTEIS

Tarifado por Vario em 09 janeiro, 2010

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A Alegria é boa companhia. Mas gosto dela como amiga apenas. Estaciono a viatura, entramos num pé-sujo, eu e ela, e tomamos umas, petiscando distraidamente semicolcheias, falando mal  sem venenos  da vida alheia, e se passar um cordão ou um bloco, a gente adere, bem atrás da charanga.

Frevo – T Jobim & V Moraes – Gal Costa

Depois é cada um por si só.

Já a amante, ah…Febril Melancolia ! Quando ela chega, aquela coisa agridoce no paladar da noite, eu não faço despisto, não visto a alma de arlequim ou clown e saio por aí aos saltos, batendo calcanhares no ar. Não. Se ela vem, é porque quer carinho, se quer atenção, se quer fazer ouvir, se quer ser amada – em paz.

Então o que faço eu ? Dou-lhe o que ela se pede : carinho, atenção, ouvido e amor.

Janelas Abertas – T Jobim & V Moraes – Gal Costa

Escancaro as janelas da 55, e vamos, eu e ela, copulando devagarinho à beira-mar, na Sernambetiba, trocando hálitos, 4 da matina, um pouquinho antes de o sol, como um orgasmo, aurorar.

Categoria: Crônica, Nas internas, Parábola
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POLITICAMENTE RETICENTE

Tarifado por Vario em 03 janeiro, 2010

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Semana passada choveu muito aqui no Rio. Sabe-se lá de onde vem tanta água, vaporada em mares suspensos…

Acho que foi 2a feira, peguei uma passageira bonitinha, e  tentei fazer uma graça aguada :

- “Mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo”
- Moço, o senhor bebeu ???
- Não…isso é um ver…
- Moço, o senhor bebeu. Bebeu.
- Nããããooooo…isso é de um poe…
- Moço, para. Vou descer. Quanto deu ?
- Não…Quéisso…Nessa chuva ? eu não…
- Aqui tá bom. Toma. Boa noite.
-…

Já não se fazem mais luas como antigamente, ainda que por cima dos temporais. Já não se fazem mais moças bonitinhas como antigamente, ainda que por baixo dos temporais. Já não se fazem mais Carlos como antigamente, posto que único, atemporais.

Às vezes cansa pelejar, e as reticências são o meu melhor argumento, o meu melhor silêncio, o meu melhor de mim.


Fala, Antonio…

Chovendo na Roseira – Tom Jobim e Elis Regina

Categoria: Diário de Bordo, Parábola
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PEDACINHO DO CÉU

Tarifado por Vario em 01 janeiro, 2010

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Apesar de a liberdade ser subjetiva e ilusória, vou exercê-la! Deixo que o caboclo versejador se apodere dos teclados e quebro o parágrafo inicial no verso e na força bruta :

Corrida boa é viagem – intermunicipal
ou de largo e grande esticado. Tem menos sinal,
pouco guarda municipal e pouco esburacado.
E eis assim o arrazoado de tão largo vau:
Se o passageiro é boa companhia, é aliado;
se de bom falado e também bom calado, é filé.
A corrida por valor fechado é uma ambrosia;
sendo no taxímetro a quantia, vou de ré.

Tenho alguns fregueses deste tipo de corrida: uns que fazem sempre o mesmo entre-cidades; outros, tiradas variadas. O interessante é que, com as repetições do serviço, vai-se formando um laço de amizade e de confiança, podendo mesmo surgir o fenômeno do divã-móvel-mútuo: chofer e passageiro tornam-se analista e analisando a uma. Ou seja, eu ganho pela corrida e faço psicanálise de graça, e o passageiro faz a corrida pela qual iria ter que pagar de qualquer forma e tem terapia também a custo zero.

(Então, atenção, esquizóides, psicóticos, monomaníacos, parafrênicos, senhoras e senhoritas em fase de caos hormonal, vão de táxi! De preferência no meu, sobretudo as senhoritas…).

Jogo uma pelada aos sábados. De de lá fisguei alguns fregueses pra este tipo de corrida e fui colocando na fieira das amizades surgentes. Um é o Major Pereira, sujeito de boa patente, que não é major nada, mas que tem posto de mando na cordialidade, na simpatia e na conversa bem conversada; outro é o Max Turco, urso somítico e sujeito não menos patente nos mesmos mandos da cordura e da bonomia; e ainda tem mais três, um triunvirato, Fabricius, Baianum e Gustavus, membros do judiciário, mas gentes finas, corretas, íntegras ao fino entre os finórios…(Brincadeira, é claro…Eu não iria, pobre “chauffeur” que sou, fazer chalaça do nosso augusto terceiro poder da república e de seus membros – caras que dominam a cabala das leis e seu latim manhoso…Afinal, liberdade é um conceito precário e esquivo).

E foi numa viagem de longo curso destas pra um vilarejo perto de Parati que, por uma dialética lúdica, entendi os conceitos antagônicos de liberdade e necessidade que um amigo meu gastara um bom tempo tentando me explicar num boteco vil do Engenho Novo, e que eu só compreendi de fato quando ele largou um de seus categóricos dísticos:

“Liberdade é quando a gente  pensa que é a gente que se locomove
Necessidade é quando a gente sente que é um outro que nos remove”

Depois de deixar o passageiro no lugar desejado, estacionei o carro e fui tomar um café. A padaria dava de frente pro mar. O dia surdia bonito na brisa, no céu, nalguns barquinhos ancorados jogando nas ondas, na maresia aflada do mergulho vertical das gaivotas berrando a manhã, que crescia,  não obstante infinita.

Acabado o café, caminhei pra dentro da paisagem, deformando-a. Nisto, mais á frente de uma molecada simpática e descalça que me cercou querendo trocados, estava um de uns oito anos chupando um picolé azul, azul quase turquesa. Eu estranhei:

- De que sabor é esse picolé ?
- Pedacinho do céu (certamente é o nome que a sorveteria popular do lugarejo dá àquela mistura de açúcar e corante).

Mas eu insisti, porque os adultos são assim – necessários e chatos:

- Mas tem gosto de quê?

Ele me olhou uns dois segundos interrogativo, certamente não entendendo a minha teima sem sentido, e me respondeu com o óbvio sem fim:

- Ué? De pedacinho do céu

Tem um filme chamado “A Liberdade é Azul”. Vi e não gostei muito. Gostei mais do do menino.

Categoria: Crônica, Diário de Bordo
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