HOMO SUM
Tarifado por Vario em 16 novembro, 2009![]()
Outro dia uma freguesa, assim que entrou, pediu que eu sintonizasse o Fm na rádio Mec. Ela queria ouvir o programa de um pastor acho que presbiteriano em que ele faz reflexões espirituais quase laicas. Ele ia discorrendo sereno, numa voz apaziguadora e tal, em considerações inteligentes, fazendo do monólogo uma boa conversa, e citou Terêncio:
“Sou homem. Nada do que é humano me é alheio.”
Aquilo me deu um susto de dentro. Se eu fosse um grego antigo, diria que aquilo me deu um pathos.
A sentença é muito simples, quase uma tautologia, mas é de uma verdade desconcertante e contundente. Acabou que fiz dela uma espécie de lastro psicológico da minha vida. Cito-a toda hora então.
Depois decorei que em latim se diz “Homo sum. Humani nihil a me alienum puto”. Este “puto” não combina muito com a pompa das citações latinas, e acaba que dá uma sonoridade jocosa e obscena que me agrada. Num quiosque especializado, gravei-a em fita adesiva e colei sobre o painel do carro. Ficou legal.
Dias depois, a mesma freguesa viu a frase colada no painel:
- E aí, seu pu… alienado?
Pois não é que é isso mesmo? Envelhecer é um lento saimento (em todas acepções): palavras que se me vão escapando, nomes de ruas que se me confundem, rostos e vozes e datas que se me embaralham num mosaico gelatinoso, pele e cheiros corporais que se me vão modificando nesse outro: o puto encomendado.
O que me salva da alienação total é que ser taxista é uma função generalista. Interage-se com tudo quanto é espécimen e assim mantém-se sempre contato com os mundos muitos. E se Fausto pactuou com o diabo renunciando à universalidade, eu, ao contrário, penhoro todo dia minha alma ao Coisa para manter minha modesta liberdade.
Por exemplo, outro dia levei uma médica proctologista, e, conversa vai, conversa vem, ela definiu o ser humano como sendo “um tubo, com uma entrada e uma saída, e que tudo ao seu redor é acessório, inclusive pensar e copular”. E teve também o engenheiro hidráulico que classificou as causas mortis como duas apenas, por entupimento ou vazamento:
- Enfarte ?
- Entupimento.
- Derrame ?
- Vazamento.
- De tiro ?
- Vazamento.
- E tumor ?
- Ressentimento. E ressentimento é entupimento brabo.
Ahahahhaha…Maluco cão…curingão
Ah, mas de ressentimento eu não morro, não, porque eu tenho minhas luvas de boxe e a frase do Terêncio que me ajudam a ser transigente comigo e convosco.
“Sou homem. Nada do que é humano me é alheio.”
Portanto, humilda-te, piloto, que a pista é desconhecida e acidentada, e estás ficando velho, e não há recurso mnemônico mais que te faça recordar os nomes de todas as ruas e onde estão cada buraco e cada ralo aberto desta cidade tão desumana.
novembro 16th, 2009 at 17:57
Meldels.
E vc ainda diz que eu sou generosa?
Generoso é vc cara. Vc é um incentivo p eu continuar na NET.
Vazamento e entupimento? Caraca, onde é que essa gente simplifica tanto?
Ou somos nós que complicamos?
É isso aí bom lema p seguir a vida sem stress, ” Sou homem. Nada do que é humano me é alheio”.
Sem trilha sonora desta vez?
novembro 16th, 2009 at 21:11
Meldels ? rsssssss
O mérito da simplificação é todo do engenheiro passageiro. È um gênio.
A frase do Terêncio é sensacional, né ? Com ela e a luva de boxe, economizo uma grana de análise e psiquiatra.
Aamanhã tem trilha…ahahahah
Abço, Nádia
novembro 16th, 2009 at 22:25
Não tenho luvas de boxe, mas faço Pilates, será que é por isso que não estresso ??????????
novembro 17th, 2009 at 9:18
Quem disse que eu não estresso ? rs
A crônica é um mantra para os nervos.
Abço.
novembro 19th, 2009 at 15:38
Sempre textos bons aqui, muito bom este por sinal , conectado.
grazianasantos.blogspot.comquero muito ler o livro
novembro 19th, 2009 at 16:02
Oi, GGG ( Grazi-Gentileza-Generosidade ),
Obrigado pelo incentivo.
Tudo bem com você ? Espero que seus projetos estejam indo de bem a melhor.
Você é muito legal e merece o néctar do mundo.
Um abço pra vc e pra todos os seus.
dezembro 4th, 2009 at 11:27
Agora que descobri seus textos, estou me alimentando diariamente deles..hehehhe.
Como acabo fazendo um coquetel com tudo de bom que leio, misturei os dois textos que li e fica a dúvida… Quando o problema é saudade, classifico como vazamento , por algo que se foi, ou como entupimento, por algo que ficou ????
Ah… descobri prque me estresso tanto… sou mulher, e o tudo que é humano me é alheio… (principalmete na TPM)…rssss.(descuple a piadinha …rsss)
Bjs
dezembro 4th, 2009 at 13:24
Oi, Denise
Boa pergunta…rsss….Não sei.
Apareça sempre cá nos assentos ensebados da 055.
Bj