Vário do Andaraí

Aduz à brinca, 055, afrontando – o caos, o bruto, a trinca, o deletério, que o piche é quente, veemente, e tu, tu somente, teu solitário império, és quem te leva – a sério.
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HOMO SUM

Tarifado por Vario em 16 novembro, 2009

055 em qap e pronto pra cópia

Outro dia uma freguesa, assim que entrou, pediu que eu sintonizasse o Fm na rádio Mec. Ela queria ouvir o programa de um pastor acho que presbiteriano em que ele faz reflexões espirituais quase laicas. Ele ia discorrendo sereno, numa voz apaziguadora e tal, em considerações inteligentes, fazendo do monólogo uma boa conversa, e citou Terêncio:

“Sou homem. Nada do que é humano me é alheio.”

Aquilo me deu um susto de dentro. Se eu fosse um grego antigo, diria que aquilo me deu um pathos.

A sentença é muito simples, quase uma tautologia, mas é de uma verdade desconcertante e contundente. Acabou que fiz dela uma espécie de lastro psicológico da minha vida. Cito-a toda hora então.

Depois decorei que em latim se diz “Homo sum. Humani nihil a me alienum puto”. Este “puto” não combina muito com a pompa das citações latinas, e acaba que dá uma sonoridade jocosa e obscena que me agrada. Num quiosque especializado, gravei-a em fita adesiva e colei sobre o painel do carro. Ficou legal.

Dias depois, a mesma freguesa viu a frase colada no painel:

- E aí, seu pu… alienado?

Pois não é que é isso mesmo? Envelhecer é um lento saimento (em todas acepções): palavras que se me vão escapando, nomes de ruas que se me confundem, rostos e vozes e datas que se me embaralham num mosaico gelatinoso, pele e cheiros corporais que se me vão modificando nesse outro: o puto encomendado.

O que me salva da alienação total é que ser taxista é uma função generalista. Interage-se com tudo quanto é espécimen e assim mantém-se sempre contato com os mundos muitos. E se Fausto pactuou com o diabo renunciando à universalidade, eu, ao contrário, penhoro todo dia minha alma ao Coisa para manter minha modesta liberdade.

Por exemplo, outro dia levei uma médica proctologista, e, conversa vai, conversa vem, ela definiu o ser humano como sendo “um tubo, com uma entrada e uma saída, e que tudo ao seu redor é acessório, inclusive pensar e copular”. E teve também o engenheiro hidráulico que classificou as causas mortis como duas apenas, por entupimento ou vazamento:

- Enfarte ?
- Entupimento.
- Derrame ?
- Vazamento.
- De tiro ?
- Vazamento.
- E tumor ?
- Ressentimento. E ressentimento é entupimento brabo.

Ahahahhaha…Maluco cão…curingão

Ah, mas de ressentimento eu não morro, não, porque eu tenho minhas luvas de boxe e a frase do Terêncio que me ajudam a ser transigente comigo e convosco.

“Sou homem. Nada do que é humano me é alheio.”

Portanto, humilda-te, piloto, que a pista é desconhecida e acidentada, e estás ficando velho, e não há recurso mnemônico mais que te faça recordar os nomes de todas as ruas e onde estão cada buraco e cada ralo aberto desta cidade tão desumana.

Categoria: Crônica

8 Responses to “HOMO SUM”

  1. Nádia Says:
    novembro 16th, 2009 at 17:57

    Meldels.
    E vc ainda diz que eu sou generosa?
    Generoso é vc cara. Vc é um incentivo p eu continuar na NET.
    Vazamento e entupimento? Caraca, onde é que essa gente simplifica tanto?
    Ou somos nós que complicamos?
    É isso aí bom lema p seguir a vida sem stress, ” Sou homem. Nada do que é humano me é alheio”.
    Sem trilha sonora desta vez?


  2. Vario Says:
    novembro 16th, 2009 at 21:11

    Meldels ? rsssssss
    O mérito da simplificação é todo do engenheiro passageiro. È um gênio.
    A frase do Terêncio é sensacional, né ? Com ela e a luva de boxe, economizo uma grana de análise e psiquiatra.
    Aamanhã tem trilha…ahahahah
    Abço, Nádia


  3. Nádia Says:
    novembro 16th, 2009 at 22:25

    Não tenho luvas de boxe, mas faço Pilates, será que é por isso que não estresso ??????????


  4. Vario Says:
    novembro 17th, 2009 at 9:18

    Quem disse que eu não estresso ? rs

    A crônica é um mantra para os nervos.

    Abço.


  5. Graziana Santos Says:
    novembro 19th, 2009 at 15:38

    Sempre textos bons aqui, muito bom este por sinal , conectado.
    quero muito ler o livro ;)

    grazianasantos.blogspot.com
  6. Vario Says:
    novembro 19th, 2009 at 16:02

    Oi, GGG ( Grazi-Gentileza-Generosidade ),

    Obrigado pelo incentivo.
    Tudo bem com você ? Espero que seus projetos estejam indo de bem a melhor.
    Você é muito legal e merece o néctar do mundo.
    Um abço pra vc e pra todos os seus.


  7. Denise Says:
    dezembro 4th, 2009 at 11:27

    Agora que descobri seus textos, estou me alimentando diariamente deles..hehehhe.

    Como acabo fazendo um coquetel com tudo de bom que leio, misturei os dois textos que li e fica a dúvida… Quando o problema é saudade, classifico como vazamento , por algo que se foi, ou como entupimento, por algo que ficou ????

    Ah… descobri prque me estresso tanto… sou mulher, e o tudo que é humano me é alheio… (principalmete na TPM)…rssss.(descuple a piadinha …rsss)

    Bjs


  8. Vario Says:
    dezembro 4th, 2009 at 13:24

    Oi, Denise

    Boa pergunta…rsss….Não sei.
    Apareça sempre cá nos assentos ensebados da 055.

    Bj


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