Vário do Andaraí

Aduz à brinca, 055, afrontando – o caos, o bruto, a trinca, o deletério, que o piche é quente, veemente, e tu, tu somente, teu solitário império, és quem te leva – a sério.
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PEDACINHO DO CÉU

Tarifado por Vario em 01 janeiro, 2010

055 em qap e pronto pra cópia


Apesar de a liberdade ser subjetiva e ilusória, vou exercê-la! Deixo que o caboclo versejador se apodere dos teclados e quebro o parágrafo inicial no verso e na força bruta :

Corrida boa é viagem – intermunicipal
ou de largo e grande esticado. Tem menos sinal,
pouco guarda municipal e pouco esburacado.
E eis assim o arrazoado de tão largo vau:
Se o passageiro é boa companhia, é aliado;
se de bom falado e também bom calado, é filé.
A corrida por valor fechado é uma ambrosia;
sendo no taxímetro a quantia, vou de ré.

Tenho alguns fregueses deste tipo de corrida: uns que fazem sempre o mesmo entre-cidades; outros, tiradas variadas. O interessante é que, com as repetições do serviço, vai-se formando um laço de amizade e de confiança, podendo mesmo surgir o fenômeno do divã-móvel-mútuo: chofer e passageiro tornam-se analista e analisando a uma. Ou seja, eu ganho pela corrida e faço psicanálise de graça, e o passageiro faz a corrida pela qual iria ter que pagar de qualquer forma e tem terapia também a custo zero.

(Então, atenção, esquizóides, psicóticos, monomaníacos, parafrênicos, senhoras e senhoritas em fase de caos hormonal, vão de táxi! De preferência no meu, sobretudo as senhoritas…).

Jogo uma pelada aos sábados. De de lá fisguei alguns fregueses pra este tipo de corrida e fui colocando na fieira das amizades surgentes. Um é o Major Pereira, sujeito de boa patente, que não é major nada, mas que tem posto de mando na cordialidade, na simpatia e na conversa bem conversada; outro é o Max Turco, urso somítico e sujeito não menos patente nos mesmos mandos da cordura e da bonomia; e ainda tem mais três, um triunvirato, Fabricius, Baianum e Gustavus, membros do judiciário, mas gentes finas, corretas, íntegras ao fino entre os finórios…(Brincadeira, é claro…Eu não iria, pobre “chauffeur” que sou, fazer chalaça do nosso augusto terceiro poder da república e de seus membros – caras que dominam a cabala das leis e seu latim manhoso…Afinal, liberdade é um conceito precário e esquivo).

E foi numa viagem de longo curso destas pra um vilarejo perto de Parati que, por uma dialética lúdica, entendi os conceitos antagônicos de liberdade e necessidade que um amigo meu gastara um bom tempo tentando me explicar num boteco vil do Engenho Novo, e que eu só compreendi de fato quando ele largou um de seus categóricos dísticos:

“Liberdade é quando a gente  pensa que é a gente que se locomove
Necessidade é quando a gente sente que é um outro que nos remove”

Depois de deixar o passageiro no lugar desejado, estacionei o carro e fui tomar um café. A padaria dava de frente pro mar. O dia surdia bonito na brisa, no céu, nalguns barquinhos ancorados jogando nas ondas, na maresia aflada do mergulho vertical das gaivotas berrando a manhã, que crescia,  não obstante infinita.

Acabado o café, caminhei pra dentro da paisagem, deformando-a. Nisto, mais á frente de uma molecada simpática e descalça que me cercou querendo trocados, estava um de uns oito anos chupando um picolé azul, azul quase turquesa. Eu estranhei:

- De que sabor é esse picolé ?
- Pedacinho do céu (certamente é o nome que a sorveteria popular do lugarejo dá àquela mistura de açúcar e corante).

Mas eu insisti, porque os adultos são assim – necessários e chatos:

- Mas tem gosto de quê?

Ele me olhou uns dois segundos interrogativo, certamente não entendendo a minha teima sem sentido, e me respondeu com o óbvio sem fim:

- Ué? De pedacinho do céu

Tem um filme chamado “A Liberdade é Azul”. Vi e não gostei muito. Gostei mais do do menino.

Categoria: Crônica, Diário de Bordo

6 Responses to “PEDACINHO DO CÉU”

  1. Nádia Says:
    janeiro 1st, 2010 at 14:51

    2010 não poderia ter começado melhor.

    Pedacinho do céu, sabor de infância, gosto de brincadeira, cheiros, sons, sabores, que nos remetem sentimentos do passado inocente, saboroso, e todos os osos bons.

    Começar o ano com memórias e textos bons é maravilhOSO.

    Feliz e fértil 2010.


  2. Nádia Says:
    janeiro 1st, 2010 at 14:53

    Quanto ao filme “A Liberdade é Azul”.
    Concordo contigo, um filme bonito p quem gosta de sofrer no cinema, muito frio, triste, angustiante, eu diria sufocante. Sou mais o azul do pedacnho do céu tbm.


  3. Vario Says:
    janeiro 1st, 2010 at 14:57

    Feliz 2010, Nádia.
    Paz e tudo de mais.
    Um menino fez o texto
    Abço


  4. Vario Says:
    janeiro 1st, 2010 at 14:57

    Concordo.


  5. Denise Says:
    janeiro 1st, 2010 at 20:14

    Maravilha…. Aqui na praia tem um picolé azul em uma sorveteria pouco movimentada. Como chamam de blue ice, nunca dei muita importância, mas com certeza hoje a noite quando eu for tomar o sorvete, ele terá um gosto diferente. Acho que o ditado que diz que comemos com os olhos está errado, deveria mudar para “comemos com as lembranças”.
    Quando as crianças estranharem a mudança no sorvete, terei uma história muito interessante para contar a elas. Assim se fazem as histórias eternas… quem sabe um dia meus netos vão tomar um picolé azul e ainda ouvir sobre o menino na beira da estrada.
    Parabéns você começou 2010 com o pé no acelerador.
    Bjs


  6. Vario Says:
    janeiro 1st, 2010 at 20:38

    Brigadão, Denise !
    O menino é um poeta. O mundo tá cheio deles. A gente só tem é que ficar de olho e ouvidos atentos.
    Bj e Feliz 2010 !!!!!!!!!!!!


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