UM TRIBUTO
Tarifado por Vario em 16 janeiro, 2010![]()
( DO LIVRO A MÁQUINA DE REVELAR DESTINOS NÃO CUMPRIDOS )
Peguei, pela cooperativa, uma passageira na travessa Soledadade.
( Travessa Soledade é um logradouro, mas “Travessa Soledade é um logradouro” é poesia )
Era o início de uma tarde de fins de agosto, se não me falha a memória. Uma frente fria havia acabado deixar a cidade depois de três dias de faxina. Ainda não era primavera, mas era. Tinha que ser. Tem que ser.
Ela ia pro forte do Leme. Duas vezes por semana ela faz esta corrida. Sei disto porque sempre ouço a solicitação pelo rádio da cooperativa, mas nunca fizera esta corrida com ela. Tomei o itinerário pedido, de pegar Botafogo, e, depois, pelo Túnel Velho, desembocar no Leme, direto, sem beirar a praia de Copacabana.
Eu tinha acabado de montar um cd do Tom Jobim dos seus clássicos e obras-primas a partir de vários originais que tenho em casa (como se fosse possível fazer uma seleção de clássicos e obras-primas deste Brasileiro que tanto bem faz e fez à gente…).
Silentes e reverentes, ela não deu um pio, e eu também não.
Quando saímos do túnel Rebouças, a lagoa Rodrigo de Freitas embrulhou tudo : a paisagem e a música se jogaram sobre os sentidos : o espelho das águas remexido pelo vento, as montanhas verdes, o dia claro, o céu limpinho de azul, matizado de todos os azuis que há – e dos que não há, e as nuvens, esparsas e ralas, transmudando-se, tocadas pela brisa fresca, em sabiá, em roseira, em macuco, em borzeguim, em claves de sol, em acordes de luz. E gente feliz caminhando, feliz correndo, bicicletas ziguezagueando contentamento, casais felizes, crianças em pleonasmos de felicidade e o morro Dois Irmãos lá ao fundo doendo feliz dentro da gente – da gente que nem merece tanto bem assim.
A cidade estava feliz : “minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro”
A moça então pediu que eu tomasse outro caminho, um mais longo, que chegasse ao Leme margeando toda praia de Copacabana. Normalmente eu estranharia, mas entendi tudo na hora, porque o que ela queria era exatamente o que eu também queria : passear – passear mais um pouquinho dentro do sonho antes do compromisso com a vida real.
Silentes e reverentes, à orla de Copa, toda exalação mágica se repetiu : “Rio, teu mar, praias sem fim”
Ao chegarmos, ela deu um suspiro, de desafogo – um suspiro de como quem admitisse ao final do suspirar, “amo” :
- Que corrida maravilhosa o senhor me deu…
- Eu não, ele.
Ah, Poeta, não falo pelos outros, porque dos outros não sei, falo por mim, por minzinho : que dívida de gratidão tenho impagável por tanta coisa bonita que musicou tantas horas da minha vida – as de amor, as que pareciam de amor, as de desamor e as de tantas outras coisas tantas.
Obrigado.
janeiro 17th, 2010 at 20:22
Bonito, bonito pra cacete isso, Vário. Parabéns mesmo.
catarsecontrolada.blogspot.comjaneiro 18th, 2010 at 14:35
Valeu , Leonardo !
Deu pra sacar que você gostou mesmo. Me deixa satisfeito p cacete, vc entende, né ? A gente peleja pra tocar o meu coração e do leitor, e quando consegue, é como se pegasse uma corrida em volta do mundo na bandeira 2 !!!!
Abção !
janeiro 19th, 2010 at 20:54
Maravilhoso… Se fosse você a descrever o Rio na Rede Globo, com certeza a cidade não suportaria o turismo. Você consegue na telespectadora aqui, mudar a imagem dos morros sangrentos e das crianças armadas até os dentes para uma imagem de um morro sardento e crianças amadas tomando sorvete… Sorvete sabor pedacinho do céu.
Imitando Vinicius eu diria… Os sem texto que me perdoem, mas a poesia é fundamental.
PARABÉNS POETA.
Bjs
Denise
janeiro 19th, 2010 at 21:02
Como diria o Mussum, “Cacildes !”
Tô saindo pra rodar agora. Respondo na volta das madrugas.
Abço.
janeiro 24th, 2010 at 15:10
Oi, Denise
Com sei lá quantos dias de atraso, eis o comentário que fiquei te devendo. Taxista que se atrasa assim só pode ser taxista carioca mesmo…
É o seguinte : se você reparar, no início da crônica eu falo que uma frente fria havia deixado a cidade após alguns dias de faxina. Tá aí, amiga, nas entrelinhas, um pouco de como vejo e sinto a cidade -que eu não diria postiça, bela mas postiça, ou algo parecido, deixo à amiga a liberdade de completar as reticências…
A amiga, os cariocas ( de todos as zonas da cidade [ops...não há entrelinha maledicente quando uso a palavra "zona"]) e os forasteiros que se entendam com ela e amem-na ou a amem do jeito que mais ao coração aprouver.