Vário do Andaraí

Aduz à brinca, 055, afrontando – o caos, o bruto, a trinca, o deletério, que o piche é quente, veemente, e tu, tu somente, teu solitário império, és quem te leva – a sério.
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NA FALTA DE ASSUNTO, PACTUO COM A PALAVRA

Tarifado por Vario em 26 maio, 2010

055 em qap e pronto pra cópia

Esta noite sonhei que o Tisnado, todo de marrom, calça de tergal marrom, camisa social marrom, sapatos marrons, me assoviou de uma esquina mal iluminada, queria uma corrida pra lugar meio incerto, uma encruzilhada de subúrbio,  a que ia pra pactuar com mais um. Pediu que o esperasse, que pagaria em dobro o tempo de espera, que voltaria acompanhado da alma do contratante, e depois ficariam numa uisqueria do Fashion Mall em São Conrado.

Era sonho, mas eu pensava reto, com arrazoado. Perguntei a ele se a vida – o substantivo, o fenômeno bioquímico – é de Deus; e se o viver – verbo e ação – é coisa dele, Coiso.

Riu o Lanfranho, escanchou-se baio e cambaio no deboche, fez dos chifres dois cachinhos e palitou os dentes com a ponta pontuda da cauda cor de ruindade :

- Pilotinho, pilotinho, tens razão, viver é pactuar. Abrir os olhos, ao acordar, já é pactuar. Mas consola-te, ó simplório, que no teatro da existência,  és o tolo, só isso. Quando muito, és um pascácio maledicente. E só. Nunca cortaste cabeças. Relaxa, que lá embaixo, vou ver se te consigo só um banho-maria pouco fervente pra teu espírito fosco.

O cenário, súbito, mudou. Eu estava num bergantim pirata e vi ao longe uma bandeira portuguesa flamejando num mastro de uma nau em cujo convés  divisei, à luz do encantamento, Padre Antonio Vieira, Fernando Pessoa, Camões, Eça de Queiroz, Miguel Torga, José Saramago, Camilo C Branco e outros a conversar na melhor língua e a tomar  uns destilados das melhores pipas. Botei a faca entre os dentes, mergulhei, bracei mar, as águas efervesciam, e em vão  tentei subir a nau do império lusitano.  Enquanto  me afogava, ouvi uma  voz escarninha ecoando de fundo :

- Pilotinho, pilotinho,  volta pra tua canoa amarela…

…E acordei, acordei sufocando em desânimo.

Este relato do sonho, e o que nele se increve em simbologia evidente, é tudo por amor da palavra, e também porque,  nesta manhã, alheio ou não à minha vontade, eu acordaria com o Nem-Sei-Que-Diga.

Categoria: Catarse, Parábola

2 Responses to “NA FALTA DE ASSUNTO, PACTUO COM A PALAVRA”

  1. X. da Vila Says:
    junho 6th, 2010 at 22:18

    Muito bom ! Maravilhosa como a entrevista do Fredera que te mandei ! Aliás, conhecem o Som Imaginário ??? Grupo de musica divisor de águas aqui em Pindorama.


  2. Vario Says:
    junho 7th, 2010 at 0:48

    Valeu, X da Vila
    Lógico que conheço. Vou ler a entrevista agora.
    Vamo que vamo, rolando morro acima.
    Abço
    V do Andaraí.


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