Vário do Andaraí

Aduz à brinca, 055, afrontando – o caos, o bruto, a trinca, o deletério, que o piche é quente, veemente, e tu, tu somente, teu solitário império, és quem te leva – a sério.
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A INVEJA

Tarifado por Vario em 20 junho, 2010

055 em qap e pronto pra cópia

No parabrisas traseiro do carro da frente, tá lá : “A inveja é uma merda”. Eu que o diga, a inveja é deveras deveras. Mas para abrandar estas deveras, tem a frase do Machado de Assis que diz que “a inveja é uma admiração que peleja”. Genial, né ? É : A inveja é uma merda.

…Acho que não comecei bem, não adentrei bem à crônica. Tentemos sem perífrase, sem vaselina, a seco, no deveras :

Eu tenho uma inveja desgraçada do Chico Buarque. E não é a inveja positiva, a construtiva, a que eleve o caráter, que o soerga com a pompa dissimulada de um soerguimento… Não, não…mas confessar a seco assim também já é maldade. Lubrifiquemos meu deveras com um pouco da baba viscosa da Juliana do Eça : minha inveja é a corrosiva, à corrossiva : beliscão de alicate no fígado, Coca-cola com soda cáustica, gelo e limão galego, Chumbinho – o legítimo – pra Ode Aos Ratos, bote de aranha armadeira, água-viva queimando minhas ilhargas 55, qualquer infusão sulfúrea de pH  a zero…a lira dos sub-reptícios, enfim.

…Tá dito. Pronto, agora adentrei-me bem a crônica, até o talo. Doeu, Zé Bedeu ?

Eu não só queria ter escrito que “seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol” e que “não sei se eu ainda te esqueço de fato”, mas gostaria que ele não os tivesse escrito. Eu queria andar por aí, dizendo coisas bonitas, cheio de mando verde no olhar, as moças suspirando; e queria ele aqui, no assento do amarelão, esmolando a indiferença das senhôrinhas pelos meus castanhos baços do retrovisor – este capiongo servil que encara pra trás. Ele ia ver o que é bom pra tosse daquela excelsitude, o Pindérico.

É…parceirinhas e parceirinhos, a inveja é phueda,  e se escreve é com pH, pH a zero.

*******

Faz uns bons anos, joguei bola com uma rapaziada aí lá no campo do Polytheama. O mando de campo, como tudo, era do Chico, mas, sorte a dele, ele não apareceu. Tinha um comício barbudo na cidade, ele – comentou-se – foi palanquear, e o Polytheama jogou desfalcado. Sorte a dele, porque a cada toque dele, limpo, na bola, de letra, de chapa, de trivela, de calcanhar, ou drible, ou um arremate a gol, uma chaleira, ou rosca, uma simples dominada com uma duas, e lá estaria eu, Gentile, dando-lhe as travas da insignificância com o fundo das minhas chuteiras.

É, Paratodos, sorte a sua….

*******

Eu pego esta última corrida, Andaraí-Alto Gávea, vou pelo elevado da Paulo de Frontin, pelo paradoxo Paulo de Frontin, de sobre cujo concreto a vista se alinda nesta ainda nem bem manhãzinha o sol em feixes oblíquos pelas encostas, os veludos dos mandos verdes  vários dos matos ao pé do Cristo, os casas pobres dos morros do Turano e do Fogueteiro, os imensos postes de transmisão de luz, as torres repetidoras de telefonia, o céu azulando devagarinho todo este Rio aéreo de passado, presente e futuro que se aclara  manhã fresca e se inspira carro adentro, coração amarelo-inveja afora, a 70 por hora, em velocidade de cruzeiro :

Futuros Amantes ( Chico Buarque )

Enquanto toca Futuros Amantes, me esqueço da minha pequeneza e fico, em 3 minutos e pouco de universo, do tamanho do Poeta.

Malgrado todo este fel ressumado, obrigado, Prego.

Categoria: Catarse, Crônica

6 Responses to “A INVEJA”

  1. Nadia Says:
    junho 20th, 2010 at 20:29

    Mais um motivo, se bem que, meio injusto.
    O cara é filho do Sérgio Buarque, o maior, melhor e mais literário dos historiadores brasileiros.
    Uma vez li que o Serjão disse, que antes ele era conhecido como o historiador Sérgio Buarque de Holanda, depois virou o pai do Chico.
    Phoda.
    Beijo.
    Abraços felizes pelo Brasil.
    P.S.
    Uma confissão, evito assistir aos jogos da copa, parece que, quando dão assisto o Brasil ganha.


  2. Vario Says:
    junho 21st, 2010 at 0:30

    Mas o pai eu já invejava antes. Sempre invejei. Só que o pai não toca no carro.
    O mesmo eu digo do Antonio Cândido, mas este também não toca no carro.

    Um abção.
    Ps. Pode assistir aos jogos. O Brasil tem bola pra desencanar os supersticiosos.


  3. Camisa 23 Says:
    junho 23rd, 2010 at 0:26

    Oi…

    A inveja é boba, nunca se vai além dela. ;)


  4. Vario Says:
    junho 23rd, 2010 at 3:23

    Vc tem razão, Camisa 23; Mas acho que a maior parte das pessoas a tem alguma medida. Além do quê, me ajudou a prestar este tributo venenoso ao Chico.

    Abço


  5. Denise Says:
    junho 27th, 2010 at 20:54

    Se continuar a escrever assim, logo veremos quem invejará a quem…
    E inveja por inveja tenho eu tb de ti, quisera saber escrever assim.
    Beijos


  6. Vario Says:
    junho 28th, 2010 at 7:18

    Salve Denise !
    Como vai ? Tudo Benz ?

    Um dia a 55 vai cavalgar este mundo velho sem porteira com um alazão alemão !
    Bj


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