Vário do Andaraí

Aduz à brinca, 055, afrontando – o caos, o bruto, a trinca, o deletério, que o piche é quente, veemente, e tu, tu somente, teu solitário império, és quem te leva – a sério.
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PIEDADE

Tarifado por Vario em 27 junho, 2010

055 em qap e pronto pra cópia

Esta madrugada tocou no rádio do carro uma música que me fez lembrar que no verão último fui levar um parceiraço pra uma corrida longa, intermunicipal. Na Via Dutra, engarrafou, apesar de estarmos no contrafluxo de ir e vir o frêmito. Nas pistas contrárias, de descida pro centro, o trânsito era como se fora uma imensa corrente travada na palma do Cão, e o Cão sorria seu urdido, pelos cantos da boca, na hora cabalística das 7 – das 7 da matina, 38 à sombra.

De dentro do amarelão, do tarjado azul, eu, distenso, sentado, ancho no ar refrigerado, sobre as nádegas do privilégio, ouvindo a mesma canção que ouvi esta madrugada, fiquei reparando e pensando nesta gente espremida nos ônibus, nas vans, nos trens, dia sobre dia, segunda a sábado,  massa informe indo e vindo, ou apenas indo, indo à intransitivo…Ora, ora. Ora, ora. Ora, ora, esta com certeza não é a gente careta e covarde em volta da lâmpada que o Cazuza canta na ótima Blues da Piedade.

A caramunha dessa gente talvez venha da comida ruim que mal se engole, talvez do sonho breve pois que mal se dorme, do amor incidente mal tangente, desta atmosfera de chumbo em que mal se resfolega, dos esgares das pequenas felicidades efêmeras : queimar uma carne, tomar uma gelada, torcer pra um time, viver até os 30 e depois ir morrendo vida adentro até onde permita Deus entre seus bocejos de tédio da eternidade, lá no alto, bem lá no alto.

Já a coragem e a fortaleza dessa gente – nós da corrente com que Deus e o Diabo disputam um cabo-de-guerrra desde pra sempre – é temperada na forja desta peleja diária.

Vim também pedir piedade, Senhor, piedade pra toda gente, todos nós, simplesmente. Simplesmente elos, todos nós.

Domingo de sol no Rio de Janeiro. Faz um lindo dia.  Dia de descanso  dos homens, mas não de Deus e do Diabo, porque a luta não para.

Tenhamos fé. Fé é tudo, Senhor. Crede em nós.

Blues da Piedade ( Frejat e Cazuza )

Categoria: Catarse, Crônica

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