UM BOLERÃO NA MADRUGADA
Tarifado por Vario em 11 julho, 2010![]()
La Puerta ( Luis Demetrio ) – Trio Los Tres Ases
De repente me vem uma súbita vontade, uma prostração, de ficar dando voltas na lagoa Rodrigo de Freitas, às 3:30 de uma madrugada qualquer da década de 1950, talvez uma 2a feira de maio.
Eu nem sonhava em ter nascido, mas vou assim mesmo : a viatura vai sacudindo sobre os paralelepípedos, passam dois Cadillacs, um Buick, e, claramente, vejo Antonio Maria e Vinicius de Moraes mijando numa árvore, às gargalhadas, declamando Castro Alves.
E lá vou eu : perdi a conta do número de voltas que dei ao redor da lagoa. Poucos edifícios e muitas casas, quase todas apagadas, uma ou outra luz acesas, talvez insones de amores não correspondidos. Decoro-lhes as fachadas para tempos de escassez, para o tempo em que o Rio não será mais Rio, que deus me perdoe…
Nestes anos 50, muita coisa está diferente de hoje…Mas o Cristo, que não cansa, é o mesmo, de braços abertos lá nos sumos, caminhando sobre o verde da mata atlântica.
Sinto-me atlântico, Brasilzão, porque o canal do Jardim de Alah mistura cheiros de mar, de estrelas salobras, de lunas lacustres e damas-da-noite. Sinto-me atlântico, Brazil, com “z”, e dói.
Sou um tipo esquisito que tem saudades do que nem vivi e sinto ciúme – este sentimento torvo dos que projetam sua sem-vergonhice sobre o ser querido – de uns olhos cujo brilho de encantamento eu queria só pra mim. E sinto também outras coisas, coisas e mais coisas. Vai saber, poeta. Me traduz, poeta, ou sufoco nesta aragem nostálgica que me põe rugas e umidade nos cantos dos olhos.
( Ela é linda, mas quando tá de óculos só um bolerão na madrugada dá conta de mim )
julho 12th, 2010 at 14:58
É… você bateu um bolerão!!! Quem diria Polvário… você acertou o ritmo da final. E, mais ainda, acertou o clima romântico que Casillas conseguiu trazer.
Parabéns e viva o bolero!!!
julho 12th, 2010 at 15:10
ahááá, Manoela.
Manoela não é bolero que canta o Júlio Igrejas ? Obrigado, figura !
Bolero é o fino, né ?
Abção
julho 13th, 2010 at 11:29
Saudade do que já se foi muito antes. . . é a tristeza viver numa época tão estéril.
Temos a alma velha.
[]´s
Bechs
julho 13th, 2010 at 12:19
Ó salve, Bechs.
Sim, tenho mesmo a alma velha. Um antropólogo ou sociólogo ou mesmo um podólogo que nos expliquem pq os dias, em alguns aspectos, já foram melhores. Não se trata de saudosismo, que é um sentimento que rego como quem cultiva um jardim triste, mas meu, de flores murchas e descoloridas, trata-se de resmungar, ainda que timidamente, contra todo lixo acumulado, em sentido lato, nos lixões, nos bueiros, nos psiquismos, nos corações baldios.
Abção !!!!!!!!!!!!!
julho 13th, 2010 at 18:57
Taí! Agora sim me identifiquei com você…. Sempre sonhei em viver nos anos 50 no Rio de Janeiro. Acho que o melhor está por vir, mas o que passou e que nem vivi me deixam uma certa nostalgia.
Que teria sido de mim na década de 50 no Rio? rsssss
Beijos
julho 14th, 2010 at 11:55
Opa !
Poxa que bom que consegui que finalmente você se identificasse comigo, sra ou srta anônima ( presumo assim, porque homem não mandaria beijos ). Mas infelizmente eu não creio que o melhor está por vir.
Um abço.
julho 24th, 2010 at 22:19
Não sei porque saiu como anônimo… mas não sou tão anônima assim né? rssss
Bjs
Denise (caso saia anônima)
julho 25th, 2010 at 5:43
Ah, agora muita coisa ficou explicada, sra anônima Bruno.
Beijo, Denise.
Obrigado pela visita. Vai um chazinho de camomila ?
julho 25th, 2010 at 22:17
Também tenho saudades do que nem vivi e sinto ciúme, ciúme de quem viveu em 50, conheceu Vinicius e Tom, Chico novinho, ai ai
graziana.blogspot.combelo texto, como sempre…
julho 26th, 2010 at 4:16
Graziana,
Eu não peço muito da vida. Eu só queria uma máquina do tempo.
È pedir muito ?
Abço e obrigado.,