HOMEM QUE É HOMEM NÃO CHORA
Tarifado por Vario em 25 julho, 2010![]()
Nos assentos esponjosos da 55, várias senhoritas, senhoras e senhôrinhas já choraram toda qualidadede pranto : do choro hoje-eu-me-racho ao hoje-eu-me-fundo. Entram às vezes já de rosto inchado ou desandam n´água conforme a corrida vai. Eu geralmente fico na minha de piloto sem patente, soldado raso ao mando do silêncio. Só falo quando convocado às ordenanças.
Homem, não. Homem nunca vi chorar. Se chorou, despistou. Nunca vi. Homem que é homem – diz-se – não chora, engole, sufoca na garganta, guenta no osso, como diz o E. Neves. Homem que é homem – reza – diz que é conjuntivite contraída numa rua empoeirada ao lado de uma vala negra a céu aberto desses subúrbios para cuja desdita os medalhões, os alcaides, os corregedores, as eminências estão…
( Alguém conhece pontuação mais democrática que as reticências ? )
( Vote ! Tergiversei, dei nos descaminhos, errei o itinerário, vai dar mais no taxímetro, leitor, mas no final da corrida eu desconto o desvio)
Falava eu das donas chorosas…Pois bem, ontem entrou na 55 uma senhora muito assim. Não puxei papo. Como eu disse acima, encaramujo nestas horas.
Mas ontem tive – ah, se tive ! – vontade de dizer a ela que ali em Botafogo, no final da Voluntários da Pátria, a locadora do Cine Clube Estação Botafogo tem filmes do Buster Keaton, do Carlitos, tem quase tudo do Fellini e seus circos e divertimentos de toda ordem ou desordem. Tem muito filme triste lá também – que, se não diverte, distrai : a gente encontra a solidariedade de quem sofra junto, mesmo lá, do lado de dentro da película, em sua sua dor outra, mas dor idem, afinal dor é dor.
Cheguei a ensaiar, titubeei Vinicius, mas não lhe disse que “é melhor viver do que ser feliz”. Cogitei de lhe contar uma piada de mineiro que ouvi dia desses muito engraçada, mas a segurei entre os dentes, quando ia quase escapando, e, ainda que bem, calei.
Valha-me porém que taxista é raça de negaça : tenteia, mede, bota preço, barganha, desconta, aumenta um tanto, se faz de pouco, rufa, ruge, mete o pé, encara, se safa da onça e vai. E vive-se assim no burlo, no burlesco, no vamo que vamo à tigrada, mistura de mineiro com italiano.
Que fiz eu ? Clicai aí abaixo, sofredores :
Pra que chorar ( Baden Powell e Vinicius de Moraes ) – Zeca Pagodinho
A senhora atentou ouvido, estancou-se da sangria e serenou. Não sei se foi bom ou mau ajudar a represar as águas da senhora, mas que importa ? No final vai dar tudo certo mesmo e, mais dia menos dia, o sol, um belo dia, se apaga.
julho 25th, 2010 at 21:54
Já tive muito taxista analista.
julho 25th, 2010 at 21:54
Ops continuação.
Faz tempo que não escrevo, mas sempre leio.
Beijo.
julho 25th, 2010 at 22:05
Eu não me atrevo a tanto. Mal dou conta de metade de mim.
Mas você pode chorar à vontade na viatura.
Abço
julho 25th, 2010 at 22:06
Nádia,
Eu sei, minha querida amiga.
Beijo.
julho 26th, 2010 at 21:00
É Vário, este sol já está com dias contados, sempre esteve. Apesar disto, diariamente viramos a cara e olhamos para o outro lado, e vamos assim… evitando a dor, por que é natural que assim o seja. Mas não adianta esquivar que o encontro é certo.
Não sou uma alma especialmente danada, mas evidente que já provei alguns dos dissabores desta vida, e chego a conclusão de que que o grande desafio não é evitar a dor, não sofrer, pois esta é uma dimensão fundamental da condição humana. A questão é aproveitar estes momentos lúgubres para destilar deste caldo de angústias coisas importantes que só aí se encontram e quem sabe um dia, encontrar não a paz, mas a serenidade.
Adorei estes dois últimos posts. A 55 me traz um sentimento agridoce.
Abração!
julho 27th, 2010 at 3:24
Tá-aqui-o-parálio, Bechs, que comentário sinário, maluco !
Tá-aqui-o-pariu, dá até gosto ler este pequeno, mas grande, tratado.
Eu, confesso, tô abestado pela qualidade do comentário e pelo elogio que eu não diria a meu texto, senão nosso.
Abração. Suas leituras muito me envaidecem. Pode botar fé.
julho 27th, 2010 at 17:03
Porra Dedé, ficou faltando contar a piada de mineiro q vc falou… KKKKKKKKKKKKKKKK
julho 27th, 2010 at 18:27
Aí, vai, Luizão. Ouvi-a de uma mineira, portanto estou inocente nessa história caso algum mineiro leia isto aqui. Procurei no google e a copiei de um site :
Dizem que o mineiro quando tropeçou em uma ao ser informado que tinha três desejos solicitou o primeiro: “Uma bacia de pão de queijo”, após esgotar todos os pães, solicitou “Uma outra bacia de pão de queijo”… assim que acabou de comer o último pão dessa bacia, solicitou uma “Mulher bem bonita”. O gênio ‘encucado’ com as duas bacias de pão de queijo e em seguida uma mulher, perguntou “Porque o sr° pediu Duas bacias de pão de queijo e só no terceiro pedido pediu uma mulher?”, o mineiro completamente sem graça responde “É que fiquei com vergonha de pedir a terceira bacia de pão de queijo!”
abço !!!!!!
julho 28th, 2010 at 20:44
É….
Veio a calhar este texto.
Realmente homem “engana” que não chora. Vi ontem mesmo meu pequeno rebento com os olhos marejados e reclamando que era gripe. Que mal há em sofrer por amor? Tento explicar a ele que não foi o primeiro e nem será o ultimo, pois do alto de seus 20 aninhos ele pode se dar ao luxo de derrubar algumas lágrimas ao final de um namoro de 02 anos. Vou repetir a ele o final do seu texto: “No final vai dar tudo certo mesmo e, mais dia menos dia, o sol, um belo dia, se apaga.”
Que ele aprenda, pois muitas outras ainda virão não é? rssss.
Se bem que concordo que as vezes não devemos mesmo nos atrever a tentar entender o porque, mas simplesmente confortar da forma que pudermos. Quem sabe com música ele também consiga amenizar a dor mais antiga e sem vergonha de todas… a dor de amor…rssss.
Parabéns! Você está cada dia melhor.. Como pessoa e como escritor.
Um grande beijo.
julho 29th, 2010 at 2:36
Ô, Denise
Tem uma crônica do R Braga em que ele diz que dói mais que bursite, que ele não deseja pra ninguém a dor de amor.
Adorei sua presença eloquente mais uma vez dizendo bonito. Só não concordo que talvez, a dor de amor, seja a mais antiga.
Será que é mais antiga que topada ? Ai !!!
Um abço