TEM ALGUMA COISA ACONTECENDO EM ALGUM LUGAR
Tarifado por Vario em 20 agosto, 2010Secret Journey ( The Police )
Tenho sempre na viatura, para os passageiros e para os permanentes, Dorflex e Halls, panacéias de bordo – refrescância, edulcoração e analgesia para os dias árduos, amargos e doridos.
“Tem alguma coisa acontecendo em algum lugar” : esta platitude é minha filosofia de vida. Todo mundo tem direito de ter a sua. Ou melhor, todo mundo tem a sua, mesmo que não queira.
Tem alguma coisa acontecendo em algum lugar. Você pode me tomar por néscio, Panca. Pode rir, Panca. É que meu bem está longe daqui, deste carro sem sentido, destas ruas sentido, desta cidade sem sentido em que eu, dentro deste uniforme tosco e sem sentido, matuto esta verborréia sem sentido, enquanto uma música sem sentido fala de uma viagem velada, talvez também sem sentido.
Entra mais um passageiro sem sentido : uma mulher muito maquiada e transpirando perfume. Inútil tentar explicar a ela que meu bem não está aqui, e que minha casa tá lá, vazia ( porque eu estou aqui e meu bem está distante ), uma caxanga suburbana sem sentido, e com uma tv enorme sem sentido desligada de programas sem sentido. Inútil tentar explicar tudo isto a ela, a esta passageira certamente louca e sem sentido. Também, e não é sem sentido, eu só diria truísmos sem sentido.
Atocho o volume ao máximo nos retros dos ouvidos da dama. Reclama, vaca ! Quero que você reclame da altura do som ! Mas ela não tá nem aí. Está alheia. Somos, os dois, doidos incomunicáveis a espreitar a lua nova, que é a mesma que eu vejo daqui e meu bem vê de lá.
RECLAMA, vaca ! Mas cadê ? Parece que está gostando…
Quanta bobajada, meu Deus dos pagãos !
( Aí, Panca, se você leu até aqui, e a música ainda tá tocando, espere, dê um tempo, ouça-a até o fim, calm down, afrouxa, se deixa )
Paro no Bragal, um posto sem o menor sentido, para abastecer, com um gás de volátil sentido, este carro sem sentido, empurrado madrugada adentrando-se sem sentido. Eu, 55, encontro o 270, bandoleiro das madrugas também. Trocamos uns xingamentos : “ladrão !”, “corno otário !”. Do nosso jeito, porque somos da mesma tigrada, sentimos um pelo outro um tipo de amizada rajada. Sou um da tigrada, e gosto disto. Minha única filosofia, minhas únicas certezas, é que tem alguma coisa acontecendo em algum lugar, e que não sou marxista, e que não sou existencialista, nem muito menos behaviorista, e não sou “ista” de bosta nenhuma.
Sou só um taxista. E gosto disto. E gosto deste “ista”. Gosto deste mundo material animado e sem sentido.
Spirits in the Material World ( The Police )
Se eu rodar até às 4:30 ou até às 6:00, não faz a menor diferença. Se eu tomar um balaço nos cornos, não faz a mínima. Se eu parar no Chaminé e tomar um caldo verde, não faz a mais desprezível alteração na ordem das coisas, vai apenas esquentar este frio de dentro – frio porque meu bem não está aqui, aqui de onde a lua nova que vejo é a mesma que ela vê de lá, de outras longitudes e latitudes, de fora do alcance do meu gps.
Não importa. Tem alguma coisa acontecendo em algum lugar, meu bem está distante, e tudo que ela faz tem fungu. ( Não sabe o que é “fungu” ? Vá olhar no dicionário, ou deixe pra lá, não faz diferença mesmo )
Algo deve fazer algum sentido. Não sei. Boa noite pra todos.
Every Little Thing She Does is Magic ( The Police )
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