Vário do Andaraí

Aduz à brinca, 055, afrontando – o caos, o bruto, a trinca, o deletério, que o piche é quente, veemente, e tu, tu somente, teu solitário império, és quem te leva – a sério.
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BETSABÉ

Tarifado por Vario em 08 outubro, 2009

055 em qap e pronto pra cópia

(Demorô. Formô. Abracadabra, que esta é para você, diaba.)

- 055, senhor Magno, 055, senhor Magno, rua X, número Y apartamento Z, transportando cão de médio porte. 055, Senhor Magno, rua X, número Y, apartamento Z, transportando cão de médio porte. Qsl** ?
- Qsl, tks**
, central.

Quando encostei no endereço, a dupla já estava na calçada : o Magno, coitado, um fiapo encarquilhado nos 70, e o cão de médio porte era um leão enfiado numa roupa de Rottweiler.

Tá-aqui-o-pariu…tá sem mordaça…Magno…um colibri na coleira arrasta esse pele-e-osso pros céus…tá-aqui-o-parálio…

Parceirinha, parceirinho, eis a praça : a sorte lhe manda um ouriço nos peitos, você tem que matar macio e sair jogando de Zidane.

Vai pro jogo, 055 :

- O senhor não tem mordaça pro amigo aí ?
-Ôôôô…meu caro, pra que mordaça ?…é ela… é fêmea…Betsabé…tirei da Bíblia…bonito, né ? Mansa, mansa, meu caro…não morde de jeito nenhum…fica despreocupado…
- Não morde…não morde até fechar a boca…fechou a boca, é mordida…ou ela almoça e janta no canudinho ?
- Fica despreocupado, garanto ao senhor.

Uma tripa dessas tem condição de garantir bosta nenhuma ?

A Betsabé ficou naquela posição de alerta, esperta, sentada nas patas traseiras e empertigada nas dianteiras, no meio do banco traseiro, arf, arf, arf…a língua vermelhuda, cabochon babando, luxenta a dois palmos da minha jugular.

(Não brinco com atavismos – estes seres adormecidos em sono leve nas funduras da gente que com qualquer barulhinho podem despertar, e aí é o escangalho; e cachorros e cachorras, sobretudo as cachorras, têm inscrito no dna que jugular de otário é para carniçar)

- Não tem como ela deitar, não ? assim é perigoso…numa freada brusca…
- Ela gosta de ir espiando…

Tá-aqui-o-pariu…cachorro só vê vulto e sombra…quê que ela espia ? Expressionismo ? Tá-aqui-o-parálio…

- Senhor Magno, esse bafo no meu pescoço tá…sa comé ?
- Ahahaha…É ela, cadela, fêmea…não tem perigo…

Véio féla-da-barbela…

Liguei o rádio para desanuviar o cagaço : “quando eu estou aqui, eu vivo este momento lindo”, ela rosnou. Troquei de estação rapidinho : “detalhes tão pequenos de nós dois”,  piorou, ela rosnou e franziu os dentes.

“São tantas emoções”, Roberto rei, da cabeleira rala, não é a praia dela…

Aí, na 3ª tentativa, golpe de pura sorte, caiu neste samba que colei aí abaixo. Na mesma hora ela esticou as patas dianteiras, deitou, pousou a cabeça vira-lata no olhar pedinte,  carente, tem dó.


Boca Sem Dente – Fundo de Quintal


Parceirinha, parceirinho, do bom e velho samba e de sua força atávica, tirei a moral desta fábula : lugar de cachorra de apartamento é num fundo de quintal…

(Demorô. Formô. Já é, que esta foi pra você, Betsabé )

*******

** Qsl, sigla usada em radiofonia que quer dizer “entendido”
** Tks, sigla usada em radiofonia que quer dizer “obrigado”

Categoria: Diário de Bordo, Farsa, Parábola

10 Responses to “BETSABÉ”

  1. goimar Says:
    outubro 10th, 2009 at 0:00

    quer saber?

    essa Betsabé é pinto perto desses seus textos tão afiados quanto os caninos do conde drácula. vô ali pegar um alho e um crucifixo.. hahahah

    muito bom, já é, de você leio tudo o que vier.

    abraço!

    poesia-potiguar.blogspot.com
  2. Vario Says:
    outubro 10th, 2009 at 5:27

    Oi, Goimar.
    Tava sumida da viatura ! Pronde ? Av Paulista, Morumbi, Capão Redondo ou Vila Madalena ?
    Obrigadão pelo incentivo.
    Abço e apareça com mais frequência.


  3. Nádia Says:
    outubro 10th, 2009 at 17:12

    Demorou.
    Mas valeu esperar.
    Ai que foi essa música que apareceu mesmo?
    Acho que vc é ficção, não pode ser real.
    Abraço da sua fã curitibana.


  4. Vario Says:
    outubro 10th, 2009 at 17:20

    Oi, Nádia.
    Tá-aqui-o-pariu ! Brigadaço. Que emocionado que você me deixou com o incentivo.
    É como diz o sambaço do Fundo “Êta vida de cão, a gente ri, a gente chora, a gente abre o coração.”
    Parace um verso besta, né ? Mas não tenho dúvida de que o próprio Drummond assinaria.
    Grande Abraço !


  5. Nádia Says:
    outubro 10th, 2009 at 17:29

    To sabendo que sai um livro por aí, e por aqui tbm.
    Quando vier lançar aqui eu vou pegar tua dedicatória.
    Só incentivo que merece. Fazi tempo que não achava nada tão bom na net.
    Só tenho a agradecer ao teu primo.
    Beijão.


  6. Vario Says:
    outubro 10th, 2009 at 17:58

    Eu também só tenho a agradecer a meu primo.
    Obrigado.
    No verso de uma GRANDE poeta brasileira o meu até breve :
    “Um beijo no fundo do seu lindo coração que bate tão forte que me espanta de alegria”
    Um abço.


  7. Joao Rosa Says:
    outubro 17th, 2009 at 10:43

    Cara sensacional.
    Voce deveria escrever um ivro com estas historiaa.
    Tenho dois irmãos que trabalham na praça em salvador, é cada historia escabrosa e hilaria
    Beleza seu blog, travei em favoritos, vez em quando passo para um papo.
    Tenho que tomar vergonha e voltar ai , faz 30 anos.
    Felicidade, boa sorte.


  8. Vario Says:
    outubro 17th, 2009 at 13:12

    João Rosa,
    Muito obrigado pela visita e pelo incentivo. Vai rolar um livro, sim.
    Apareça sempre pra gente papear mesmo.
    Como você chegou à viatura ?
    Um abço.
    Ps. Quando vi seu nome, numa centelha, li “Guimarães” entre “João” e “Rosa”, e pensei “Xi…o cara veio me multar pelas barbeiragens com a língua e com a estilística”.


  9. Joao Rosa Says:
    outubro 17th, 2009 at 16:25

    Nao o Guima é muito compli, assim como viver.
    Temos que aproveitar tudo, Diadorim e muito complicado(a)
    Não sua fluencia e límpida e clara. o Guima iria gostar de conversar com voce.


  10. Vario Says:
    outubro 17th, 2009 at 21:04

    Valeu, João !
    Diadorim é muito complicado(a) mesmo, afinal é mulé. hauhauhau.
    Abço.


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