PALAVRAS AO VENTO
Tarifado por Vario em 16 agosto, 2009![]()
Estate – João Gilberto
Quem tem boca vai a Roma e todos os caminhos levam ao mar.
Sebastião, São Sebastião, era um legionário romano e soldado de Cristo : tinha na gálea, na loriga, no gládio e na fé suas armas de guerreiro e cordeiro. Diz ainda a hagiografia que, por conta do tratamento ameno que dava aos prisioneiros cristãos, foi condenado à morte por Diocleciano. Amarrado a um tronco, foi flechado pela guarda pretoriana que ele próprio chefiava. Seu corpo foi jogado num rio, mas foi resgatado por Irene, Santa Irene, que tratou das feridas daquele corpo surpreendentemente ainda quente de vida. Curado, se reapresentou diante do imperador, a dar mostras de que a fé afronta a injustiça, a tirania e a morte. Desta vez o César ordenou que fosse espancado por maças até 7 de agosto de 2112, data em que São Sebastião do Rio de Janeiro, minha única fé, vai ao passamento.
Praz a mim e a Deus, Cidade, não estar mais aqui para presenciar sua agonia de mártir de nossa sanha humana, demasiado humana, de carne e poder.
Acabei de chegar da rua, a última corrida que fiz esta madrugada foi levar dois italianos carrancudos de uma termas em Ipanema para um hotel de luxos na Barra. Na volta, na avenida Niemeyer, parei no mirante debruçado de banda sobre as praias do Leblon e de Ipanema de raros automóveis, comprei uma água de coco, me acotovelei na balaustrada e fiquei ruminando, enquanto a usina ábdita dos ventos marinhos dava umas chicotadas nos lombos do penhasco tentando me dizer coisas. Abri as narinas e os poros para ouvir o que me dizia a aparente calmaria noturna.
“Eu sou um bicho”, me disse o mar, “o primeiro bicho havido, arfando, ora cativo da lua, gelatinoso dentro dos fossos, dos abismos, das fossas, a danação salgada dum pranto compresso; ora escumando, rompendo, botando tudo abaixo em ondas irresignadas de sentido.”
(Quisera-me para mar, mar eu seria, mas as conjunções adversativas…Mas o mar também tem seus mas, o mar é fundo, são oceanos, cinco, cinco sentidos se misturando para o esquecimento. Pois então, criatura, me farei mar – vivo desde muito antes dos coacervados e quase imortal.)
Como um cavalo costumado, desarreado e cansado, a viatura por si só pegou o caminho de volta para casa, margeando toda a costa – praia do Leblon, de Ipanema, Copacabana, enseada de Botafogo -, e eu fui-me resignando ao sentido lógico das coisas : um dia tudo isto vai acabar mesmo, tudo acaba; São Sebastião, romano, morreu espancado, o Rio vai morrer afogado pelo mar e por si mesmo, e a Itália é uma bota cuja ponta serve para dar uma bicuda no destino.
Calço a bota e piso no acelerador para os caminhos, caminhos palíndromos : Roma me tem amor.
agosto 16th, 2009 at 11:59
Dedé,
Excelente artigo. Muito emocionante mesmo!
blogdogeorgesarmeto@blogspot.comAbração
George Júnior
agosto 16th, 2009 at 14:29
parabéns
agosto 16th, 2009 at 15:06
Valeu, malucão
A viatura fica toda estufada com elogios vindos de todo tipo de leitor. Todos se igualam cá dentro. Mas visitas como a sua, de estofo, mereceriam, no sentido figurado, é claro, porque sei que você caga e anda pra essas coisas, uma Zafira ou um carro mais adequado, que não este Siena populacho.
Abço.
agosto 16th, 2009 at 19:40
Quem tem talento… escreve. Escreve Vário. Muito bom.
agosto 16th, 2009 at 20:40
Anna,
Brigado.
As portas da viatura, em largo sentido, estão à sua disposição.
abraçaço.
janeiro 20th, 2010 at 22:03
[...] aqui um texto sobre a cidade, de dentro da barca, passando ao largo do piscinão de Ramos [...]
variodoandarai.com.br/?p=1386janeiro 22nd, 2010 at 23:24
Após ler sua entrevista com o Mauro Ventura fui até seu site? blog?
Cara vc escreve muito bem!
Lucidez e Poesia. É o que precisamos nestes tempos ainda tão sombrios, para parafrasear Hannah Arendt.
De agora passarei sempre por aqui para amenizar minha pequena alma.
janeiro 23rd, 2010 at 7:27
Luiz, Obrigado
Acabei de chegar da rua. são 7:20 da manhã. Ia empacotar direto, mas resolvi dar uma olhada nos emailes.
Como é bom ler coisas assim. Não por vaidade. Acho que não. Talvez só um mínimo necessário pra manutenção da vida. Mas o mais legal é constatar que não estamos sós nas considerações que fazemos, leitor-escritor e escritor-leitor, da cidade, do mundo, da vida.
Um abraço desta outra pequena alma.