NA FALTA DE ASSUNTO, PACTUO COM A PALAVRA
Tarifado por Vario em 26 maio, 2010![]()
Esta noite sonhei que o Tisnado, todo de marrom, calça de tergal marrom, camisa social marrom, sapatos marrons, me assoviou de uma esquina mal iluminada, queria uma corrida pra lugar meio incerto, uma encruzilhada de subúrbio, a que ia pra pactuar com mais um. Pediu que o esperasse, que pagaria em dobro o tempo de espera, que voltaria acompanhado da alma do contratante, e depois ficariam numa uisqueria do Fashion Mall em São Conrado.
Era sonho, mas eu pensava reto, com arrazoado. Perguntei a ele se a vida – o substantivo, o fenômeno bioquímico – é de Deus; e se o viver – verbo e ação – é coisa dele, Coiso.
Riu o Lanfranho, escanchou-se baio e cambaio no deboche, fez dos chifres dois cachinhos e palitou os dentes com a ponta pontuda da cauda cor de ruindade :
- Pilotinho, pilotinho, tens razão, viver é pactuar. Abrir os olhos, ao acordar, já é pactuar. Mas consola-te, ó simplório, que no teatro da existência, és o tolo, só isso. Quando muito, és um pascácio maledicente. E só. Nunca cortaste cabeças. Relaxa, que lá embaixo, vou ver se te consigo só um banho-maria pouco fervente pra teu espírito fosco.
O cenário, súbito, mudou. Eu estava num bergantim pirata e vi ao longe uma bandeira portuguesa flamejando num mastro de uma nau em cujo convés divisei, à luz do encantamento, Padre Antonio Vieira, Fernando Pessoa, Camões, Eça de Queiroz, Miguel Torga, José Saramago, Camilo C Branco e outros a conversar na melhor língua e a tomar uns destilados das melhores pipas. Botei a faca entre os dentes, mergulhei, bracei mar, as águas efervesciam, e em vão tentei subir a nau do império lusitano. Enquanto me afogava, ouvi uma voz escarninha ecoando de fundo :
- Pilotinho, pilotinho, volta pra tua canoa amarela…
…E acordei, acordei sufocando em desânimo.
Este relato do sonho, e o que nele se increve em simbologia evidente, é tudo por amor da palavra, e também porque, nesta manhã, alheio ou não à minha vontade, eu acordaria com o Nem-Sei-Que-Diga.